quinta-feira, junho 04, 2015

Um sabor reminiscente que me assaltou. Na casa da minha avó Maria e de meu avô José, tinha aqueles copos de metal. O corpo era colorido e o bocal, cor de lata mesmo. Eles ficavam em uma Frigidaire, daquelas com porta (bem) grossa e uma enorme maçaneta, praticamente um manche, para abrir. Lá dentro também ficava o Guaraná Antarctica "Champagne", garrafa de vidro. Tomávamos nos copos gelados. O gosto metálico do copo resfriado misturado com o do Guaraná Antarctica Champagne, isso que me veio agora.

sexta-feira, abril 17, 2015

Nota Legal (mas nem tanto)

Pois. Como ontem passei três horas e meia da minha nem tão preciosa vida arrancando cabelos da minha nem tão basta cabeleira, tentando extrair uma nota fiscal eletrônica, tomo a liberdade, sem a licença da Lucia Porto, de usar os comentários que fiz sobre o desabafo dela e de vários contribuintes do meu feed. Quais sejam:

1.

Eu só fico louco que tem um FDP ganhando muita grana com aquela leitora de cartão, e parece que é o mesmo que ficou milionário com a troca das tomadas, fabricando benjamins e adaptadores. Porra: é uma maquininha chulé, que o Banrisul dá de graça, nos custou 50 pilas porque nosso Departamento de Compra é Ninja e foi buscar na Assis Brasil, mas na Certisign e na maioria das lojas sai por 150 paus! CENTO E CINQUENTA DILMAS vezes o número de emissores de nota em POA: gira mais dinheiro do que toda a safra gaúcha de SORGO!

2.

Eu resolvi sozinho a bronca, laralaralala! Depoia de 3 horas, me senti como se tivesse concluído a Travessia do Pontal de Tapes. Primeiro, tive de instalar o driver da leitora de cartão; depois, atualizar o Java (atenção: "atualizar o Java" não é um eufemismo sexual); depois, tive de limpar cookies (tampouco "limpar cookies") e mexer numas configurações de Java, de novo ele, seguindo um tutorial. Ato contínuo, descobri que não tinha o programa da Certisign e o instalei. Ainda assim, o problema persistia. O SAC da Certisign me mandou fazer um teste e descobrimos que a falha era da leitora de cartão, aquela dos 50 pilas. Já estava com a leitora da Certisign, aquela de 150, no carrinho virtual de compras e planejando sair correndo pra buscá-la a seguir na Oswaldo Aranha, em frente ao Julinho, quando resolvi tentar uma última cartada: colocar o cartão de cabeça pra baixo na leitora. Bingo!!! É isso: é um esquema pensado para você terminar com a sensação de que a culpa é toda sua, da sua burrice! Ora bolas, estúpido: achar que o cartão deve ser inserido com a face pra cima...

3.

A mensagem que ralou todo mundo era a da 'applet'. Pois, esta da applet eu resolvi com um tutorial, mas é impensável pensar que o contribuinte tenha de ir até esse nível de configuração para poder emitir uma nota. Disseram pra ele que era simples, que ele podia ter empresa, que com um papel e uma caneta ele emitia uma nota. Podia ser em letra de forma mesmo. Ou cursiva, até. Não aceito nada mais complexo online do que um papel e uma caneta!

4. 
Resolvi o problema de "a applet não está carregada" aqui, no próprio site da Nota Legal de Porto Alegre:
http://notalegal.portoalegre.rs.gov.br/default.php?reg=29&p_secao=113&hc_location=ufi



sexta-feira, março 13, 2015

Então, naqueles 6 dias que Deus tava lá, criando o mundo, que no sétimo ele arreou na rede, teve duas epifanias. Tu sabe, epifania, aquele momento em que tudo se ilumina e faz sentido e blablabla. Tipo assim: dois momentos em que Deus encontrou Deus. No primeiro, ele criou o figo. Já tava demais, os seres já tinham algo que lhes daria um gostinho da perfeição, da plenitude, do absoluto. Uma pista de que Ele mesmo existiu e não tava ali pra brincadeira. Tava bom, mas daí o Cara teve outra epifania e dela surgiu a mulher. Porra, Deus já tinha feito o figo. Daí, pá, fez mais umas coisinhas sem importância, e quando já tava quase vazando, o Cara fez a Mulher. Velho, não é que o Cara fez tudo; é que Ele fez o figo e a mulher! Daí, correu pro abraço, deslizou pra rede pra tirar uma torinha no Domingo e se consagrou. O Pinta era fodido na lança mesmo!


Pais e filhos


Hoje foi meu dia de levar o piá ao colégio. Ele recém entrou na primeira série do primeiro grau - agora diz ensino fundamental. Ainda está deslumbrado com o 'colegião'.
Cruzamos a catraca de entrada, e eu pensando... até quando?
- Meu filho, mais uns dias e já dá pra te deixar aqui na roleta, né?
- Acho que sim.
- Sabe como chegar na sala?
- Sei. Se tá sol é pra ir pro pátio de areia e se tá chovendo é na área de convivência - sim, ele disse 'área de convivência'.
Atravessamos o patiozão de mãos dadas. E eu pensando... até quando?
Assim que chegamos à entrada do pátio de areia, o João sussurra.
- Pai, olha ali a Ana...
Aqui um parênteses. Em três semanas de escola, o guri já se apaixonou por três colegas. Primeiro a Rafa, depois a Lavínia, e agora a Ana. Quando penso nisso, me dá um orgulho. Garanhão! Mas daí me reprimo. Pensamento sexista! E se ele for gay? Só fala nas gurias, nunca nos guris. Se ele for gay, tudo bem, se ele for gay, tudo bem... fico me repetindo.
Olho pra Ana, magrinha, pequenina, duas caxuxas laterais. Está com medo de ir sozinha pro pátio de areia, enrabichada nas pernas dos pais. Olho para eles, esperando uma cumplicidade que não vem. 
- Então, esta é a famosa Ana?
- A-han. E esse é o João gremista?
- É!
O guri me dá um abraço apertado, de 20 segundos. Diz que me ama. Dá beijo. Às vezes ele faz isso. Fico pensando: será que vou morrer hoje? Ele previu algo? Por que esse abraço tão caloroso, assim, do nada? Até quando?..., eu penso.
Fico tonto com o abraço, com o beijo. Quando ergo a cabeça, ele já está dois metros longe. Deu a mão pra Ana. Eles se afastam no pátio de areia. De costas. Cada vez menores. Mãos dadas. Não olham pra trás. E é tão lindo! 
Viro de costas e me vou. Sim, ele previu. Eu morri um pouco hoje. E também morri de amor!

Te amo, meu filho!!!


domingo, fevereiro 15, 2015

Sei que era uma mansão, pelo espaço interno. Não posso dizer muito dela por fora. Vivia envolta pela cerração de Gramado, pelas araucárias e caneleiras. Mas isso não importa. A história vale pelos seus personagens. Jamais vou entender a relação entre eles. Era um Big Brother armado pelo destino. Todos ali para aproveitar a grande festa de Ibiza em pleno Festival de Cinema de Gramado de 2003. A atmosfera era de O Anjo Exterminador, filme do Buñuel: eu imaginava se repentinamente ficássemos presos ali, para sempre.
Mas vamos ao que interessa:

- Pintinho: um dos sujeitos mais boa-praça e generosos que conheci. No restaurante, fazia questão de pagar a conta da mesa inteira. Sempre com dinheiro vivo. Era de Caxias e tinha sotaque de gringo. Acho que morou na Itália um tempo. Trabalhava com máquinas de azar, num tempo em que não se sabia se isso era legal ou ilegal. Não duvido que fosse operador da loteria zoológica. Acaso se tornasse milionário, temo que não administraria bem a fortuna: gastaria tudo oferecendo os melhores jantares e as melhores viagens para os amigos. Era exímio cozinheiro. Chegou para o fim-de-semana numa caminhoneta tipo Pampa, caçamba aberta, tomada por tralhas de cozinheiro: panelas tipo wok, caçarola, de pressão, facas, um imenso queijo holandês, um fogão de campanha industrial. Preparou a melhor massa que já comi ever. Sonho com ela até hoje: espaguete na manteiga com molho e raspas de limão sciciliano. Al dente, perfeita, inesquecível.

- Tio Zeni: o mais velho da turma. Parece que já faleceu (sad...) À época, Tinha uns 40, 50 ou 60, não dava para precisar. Vivia acompanhado de um sobrinho de oito anos. Falava alto e desafinado. Tinha uma amável e proeminente pancinha e cabelos grisalhos pintados de dourado. Sotaque de gringo. Tão boa-praça quanto atabalhoado. Engraçado pacas. Na volta da festa, fumei um cigarrinho de artista com ele. Dentro do carro, pra não dar na cara do sobrinho.

Eu: solteiro. Idade: 24. Sabe-se lá por que aceitei curtir o fim-de-semana do Festival a convite de um casal de amigos, numa casa com um bando de desconhecidos. Andava em busca da paz. À procura do meu eu interior, sabe? Provavelemente era apenas reação a um trago monumental do fim-de-semana anterior. Ou, quem sabe, não. Fato é que prometi manter comportamento irrepreensível neste final de semana. A ponto de me tornar um coadjuvante naquela casa. Um mero espectador. Gosto de pensar que aquela jornada foi decisiva para que o casal de amigos decidisse me apresentar para a Rafa, irmã dele, cunhada dela. Afinal, não podia ser tudo mero acaso...

Os sócios:.eram bonitos. E fortes. Porte atlético, corpos moldados em academia. Muito parecidos, tinham sido sócios. E melhores amigos. Inseparáveis. Há um tempo, eram inimigos mortais. Alguma ronha na sociedade... A bronca tinha ido parar na justiça. Não se falavam há meses, anos. Eram adversários, rivais. Odiavam-se tanto quanto tinham se amado. A presença da dupla na mesma casa era motivo de tensão. Debaixo do mesmo teto, não trocavam olhares, muito menos palavras. Em determinado momento, nós, os homens, iniciamos um campeonato de sinuca: havia uma mesa profissional em um dos cantos da mansão - bem iluminada, jogo de bolas reluzente. Eram eliminatórias. Calhou que os dois se cruzaram na semi. Começa o jogo. Eles não se falam, cruzam olhares pelo reflexo das bolas. Lá pela pelota três, a tensão era tanta que nós, os demais, resolvemos deixar a volta da mesa. Os dois ficaram jogando. Caiu a primeira bola oito e começaram outra partida. E outra. E outra. E outra. E outra. E outra. Jogaram por horas a fio. Um adivinhava a jogada do outro. Mas não falavam. Juro: foi lindo! De longe, todo mundo se entreolhava: 'deixa eles, deixa eles...", dizíamos, baixinho. Espero do fundo do meu coração que depois daquilo tenham retomado a amizade.

Mariá: não foi à toa que a deixei por último. Era linda. Deslumbrante. De tirar o ar. Pele alva e cabelos negros, ondulados. Alta, magra, soberana. Mas dava para notar alguma fragilidade no olhar. Namorava um dos rapazes da casa. Era de Balneário. Não cansava de repetir isso. Me ensinou que quem é de Balneário, não diz Camboriú, nem Balneário Camboriú, mas diz Balneário. Tinha uma loja, lidava com moda. Vestia-se lindamente. Por volta das oito da noite do dia da festa, passou a ser o assunto da casa. É que tinha agarofobia. Ou agorafobia, não sei como diz. De qualquer modo: medo de multidões. E as festas da Ibiza eram um aperto, um povo, milhares de pessoas roçando ombros em um galpão. Davámos todos conselhos à Mariá, que não tivesse medo, que estaríamos junto, que na entrada faríamos uma espécie de cordão, o namorado dela a protegeria. Quando entramos na festa, a escoltamos. Depois, foi cada um pro seu canto. Ficamos sabendo que ela não aguentou o tranco. Voltou para casa às duas, e as quatro da matina pegou a estrada com o namorado com destino a Balneário. Temi pela vida dos dois. Mas sei que chegaram bem. Rezo todas as noites para que ela tenha melhorado da agorafobia. Ou agarofobia. Lembro dela toda santa vez que alguém diz que é de Camboriú ou de Balneário ou de Balneário Camboriú. Tenho verdadeiro carinho por todos que participaram daquele final de semana.

Julius Rigotto: devia estar em algum lugar VIP da Ibiza. Qualquer problema, era para falar com ele, nos orientaram os caxienses da casa. Não foi preciso. Mas não poderia deixar de citá-lo em uma história tão surreal.

* Obs.: essa história é baseada em fatos e pessoas reais. Baseada. Na verdade, é absolutamente fiel à minha memória. O que não quer dizer em absoluto que seja um relato fiel do que rolou. Pelo contrário: tenha certeza que minha mente modificou quase tudo ao longo desses 11 anos que nos separam desse final de semana.


De pandorgas e livramentos

Foi em agosto do ano passado. Fui levar o Emiliano em casa, conhecer o filho dele e da Amarílis, o bebê Miguel. Estava lá o pai dele, o Carlos Urbim, que faleceu hoje. Tinha passado por uma cirurgia, via-se muito magro e um tanto frágil. A morada da Av. América abrigava uma singela festa. Uns amigos mais chegados tinha ido comemorar o mesversário do novo integrante da família. Havia bolos, balões e uma serena alegria no ar.
Em determinado momento, o Urbim sentou-se no sofá e começou a contar uma história. Era uma história de pandorgas e de Livramento, de ruas e de 'gurizes'. Aquela fala arrastada e desafinada, como um eterno adolescente mudando a voz, começou a ganhar corpo. Cada vez mais alta e acompanhada por um olhar reluzente, contrastava com o corpo ainda adoentado. Dejá Vu. Voltei 25 anos. Estamos na sala das Alfas do Colégio de Aplicação. O autor de Um Guri Daltônico estava ali para contar umas estórias. Nosso encantamento de estar cara a cara com um escritor de verdade era tão grande quanto o estranhamento de saber que um escritor de verdade podia ter uma voz de mentira.
Sabe sobre o que o Urbim falava para aquela piazada de 10 anos? De pandorgas e de Livramento. Agora, sentado na poltrona da casa dele, eu não podia crer que contava exatamente a mesma história que eu ouvira no final dos anos 80. Que aquilo, lá atrás, não era uma palestra ou uma apresentação pensada para crianças. Era simplesmente o Urbim sendo o Urbim. E ainda assim, não conseguia deixar de pensar: quantas vezes o Emiliano deve ter ouvido essa história da pandorga? Tinha certeza que aquilo que me encantava devia irritá-lo: qual filho não se enche com os papos do próprio pai?
Um Guri Daltônico marcou minha infância. Junto com o Livro dos Porquês e Flicts, do Ziraldo (que fixação em cores!). Acho que era tão bom, porque, mesmo adulto, o autor parecia ainda ver o mundo como um menino. E assim foi nas pouquíssimas, mas sempre marcantes situações que o vi. Até mesmo no churrasco da nossa turma de formandos do Jornalismo, do qual o Urbim era paraninfo. Discutíamos a morte do Tim Lopes. Até que uma colega começou a argumentar que 'mas a Globo também teve culpa, porque blablabla'. Ao ouvir justificativas para a morte de um colega, o paraninfo sentenciou.
- Então te fode!
Instaurou-se um silêncio, seguido por gargalhadas. Era o que (quase) todo mundo ali queria dizer. A vida inteira interpretei isso como a sentença final, a voz da sabedoria pondo fim ao debate. Se o Urbim disse, então está dito. Amém. Hoje, no dia em que ele se foi, me dei conta do seguinte: não era um sábio, um Deus, um ídolo, nem mesmo o paraninfo, proferindo a sentença final - e que humana sentença! Era apenas um adolescente mudando a voz, dizendo simplesmente o que tinha vontade.

Um beijo grande pra toda família Urbim: Emiliano, Alice, Glauco.

terça-feira, dezembro 16, 2014

Num sábado, o vizinho acordou maluco. Eram oito da manhã e ele estava varrendo a calçada do outro lado da rua. Encheu três sacos de lixo com meladas flores de jacarandá. Era primavera. Mais tarde, foi visto lidando com o jardim do nosso condomínio. Saímos para almoçar e, quando voltamos, os canteiros estavam coloridos, tapados com as flores rosas recolhidas da calçada do vizinho. Lindo! Na janela do apartamento do maluco, uma placa: vende-se! Ao fim do dia, chegava o primeiro interessado em comprar. O apartamento era avaliado em R$ 80 mil. Ele pedia R$140 mil. Meu vizinho era doido. Meu vizinho era corretor.

domingo, maio 25, 2014

Venho por meio desta esclarecer-vos sobre três tipos de licença previstas em nosso direito consuetudinário, sendo as duas primeiras já positivadas e a terceira em vias de positivação: 
- LICENÇA GALA
- LICENÇA NOJO
- LICENÇA PRA DOIS ENTREGA OS TACO:

- LICENÇA GALA: "O empregado poderá deixar de comparecer ao serviço sem prejuízo do salário: até 3 (três) dias consecutivos, em virtude de casamento" Art. 473 da CLT 
- LICENÇA NOJO: "O empregado poderá deixar de comparecer ao serviço sem prejuízo do salário: até 2 (dois) dias consecutivos, em caso de falecimento do cônjuge, ascendente, descendente, irmão ou pessoa que, declarada em sua Carteira de Trabalho e Previdência Social, viva sob sua dependência econômica." Art 473 da CLT
- LICENÇA PRA DOIS ENTREGA OS TACO: "os jogadores poderão deixar de manter os tacos no seu buraco tão logo assumam a posição de time rebatedor, por tempo indeterminado, até o pedido de DESFEITA PRA DOIS, desde que um deles brade em alto e bom som: LICENÇA PRA DOIS ENTREGA OS TACO." Art 35 do anteprojeto de projeto de lei da Consolidação das Leis do Tacobola.

Cumpre informar-vos, ainda, a descoberta, por este jurista diletante, de uma outra licença deveras relevante:
LICENÇA DOAÇÃO DE SANGUE: "O empregado poderá deixar de comparecer ao serviço sem prejuízo do salário: por 1 (um) dia, em cada 12 (doze) meses de trabalho, em caso de doação voluntária de sangue devidamente comprovada" Art 473 da CLT . Cumpre salientar, ainda, a título de glosa, que tal licença, segundo alguns juristas, não necessariamente deva ser gozada no exato dia da doação, podendo, portanto, ser gozada "em uma sexta-feira qualquer". Dica deste empresário: não goze em uma sexta-feira qualquer.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Devagar se vai ao longe; mas já não se encontra ninguém

Olho para o lado e vejo um pouquinho dele em quase tudo de importante que construí. Minha família, minha casa, meu trabalho... Era meu psiquiatra há 17 anos. Morreu neste sábado, o Outeiral.

Tudo foi como tinha de ser. Em honorários, paguei uns 50 cavalos de polo ao longo da vida para ele, como costumava brincar. Ele me retribuiu ajudando a transformar aquele adolescente imaturo e cheio de medos em um homem, em um pai - tão orgulhoso como ele mesmo era.

Dezessete anos. Uns mil apertos de mão de oi. Outros mil de tchau. Assim deve ser entre médico e paciente. Nunca um abraço ou um beijo. E nunca fez falta. Só hoje.

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É como se eu soubesse a posição de cada livro nas prateleiras do consultório; de cada quadro e objeto. Mas, de todos, o meu preferido era este ursinho de madeira. Segundo consta, presente da filha, Júlia. Ano passado, fiz questão de fotografá-lo no divã. Em tempos, sem interpretações hoje, por favor.

"DEVAGAR SE VAI AO LONGE, MAS JÁ NÃO SE ENCONTRA NINGUÉM" (esta frase acompanhava o desenho de um homem sobre uma tartaruga; se não me engano, são do Millôr Fernandes, a frase e o desenho. Mas não tenho certeza...)


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* Texto publicado dia 21 de julho, após a morte do psicanalista José Outeiral, no meu Face. Mas confio mais no Blógui, pras coisas que quero guardar...


Um dia naquele verão...

O telefone tocou. Fixo. De disco. Decerto, nem tinha celular. Ou tinha e a gente não usava. Ou tinha e não pegava em Torres. Pra lá, a comunicação era no 664.
- Ahn?
- Sébi? Como é que tão as coisas?
- Ahn? Ah, bem... Bem... Hmmm...
- E a confusão?
- Oi? Que confusão?
- Não ouviu nada? O Português se matou. Matou a mulher. Aí na casa da frente. Todo mundo falando. Tá no rádio.
- Peraí.
A casa estava escura só os feixes da luz passando pela persiana, sempre fechada. Podia ser 8h, 9h, 10h...14h, 15h... Atravessei a sala, abri a porta, o sol cegou, fechei os olhos, abri, fechei, abri, fechei, a cachola latejando. Tinha polícia, IML, o escambau. O coração acelerou. Acordei. Voltei pro telefone.
- Diz que ele atirou nela e...blablabla
- Beijo. Vou ver.
Que jornalista de merda sou eu. Tiros na minha janela, quantos? Um, dois três, dez? E eu dormindo. Minha Pentax na mesa de cabeceira. Agarrei a câmera e saí correndo. Abri e porta, vi os polícias retirando o corpo. Parei. Dei um passo pra dentro de casa, atirei a câmera no sofá, fui até a cozinha, peguei um pão-de-minuto do Farol, saí, tranquei a porta, cruzei pelos curiosos aglomerados na calçada, atravessei a rua, adentrei a praia,como sempre, o sol agredindo a vista, como sempre, a areia queimando a sola, como sempre, a corrida até o mar, como sempre, e o mergulho na primeira onda, como sempre... Depois, vinte minutos de caminhada até os Molhes, a cachaça saindo pelos poros, a primeira cerveja na barraca do Fabiano, e então, de repente, como sempre, a cabeça já não mais dia, o esôfago já não mais ardia, a luz do sol já não machucava.

Guardo até hoje o negativo daquele verão. Contra a luz do abajur, revejo o tombo da Maria no luau de Itapeva, o finado Roberto descendo o escorregador da cachoeira de pé, um detalhe do paralelepípedo das ruas de Torres...  E só. E já era demais. Muito mais do que eu poderia imaginar.