segunda-feira, julho 22, 2019

O PIJAMA

O dia que botei minha cachorra na do Pijama

- Pronto?
- Alô, é do Drummonds Hills?
- Sim, senhora.
- Do canil do Pijama?
- Esse mesmo. É um dos nossos melhores exemplares!
- É o seguinte. Eu tenho uma cadelinha pastor de shedlan também. Tipo mini cólen...
- Shetland! Pastor de Shetland.
- Isso, é que é difícil falar, ainda não me acostumei, mas estou amando a raça.
- Como posso lhe ajudar?
- É que o seguinte. A minha cachorra, a Ive Brussel, ela tem conta no Instagram. E ela fica olhando a internet. E quando aparece foto do Pijama, ela enlouquece!!!
- Hahaha. Não acredito! Entendi. E como podemos lhe ajudar?
- A gente queria cruzar com o Pijama.
- Mas, senhora, não funcio...
- Quando você pode deixar o Pijama aqui? Ouvi que o macho que vai na casa da fêmea, certo?
- Depende. Mas, minha senhora, não funciona assim. 
- Eu pego só uma cria e dou as outras pra você! É mais pra ela cruzar mesmo.
- Não é questão... 
- Eu pago!!
- A sua fêmea tem pedigree?
- Tem. 
- Quem são os pais?
- Sou filha da Dona Alice com o seu Ivo.
- Não. Os pais da sua cachorra. Tem no pedigree, escrito.
- Um minuto... 
- A senhora não quer me enviar por email e falamos posteriormente?
- Capaz... Já está na mão. É Zibelinen, a mãe. 
- Zibeline! É a cor. Como marta.
- Não é a Marta, não. É Zibeline mesmo, a mãe. Essa mesmo.
- Não, zibeline é como sable.
- Sim! Sim! Como a senhora acertou. O pai é o Sable! Ele é bom? Eu sabia que ela era boa! Dá pra cruzar, então? Quando sangrar eu aviso, pra você trazer o Pijama.
- Senhora. Zibeline, marta, sable, isso é cor de pelagem. O nome do pai e da mãe está em cima...
- Ah, sim, mas nomes dos pais eu sei. Nem precisa ver. Ela é filha da Joy com o Negão.
- Preciso os nomes do Pedigree. Estão acima da cor da pelagem. É só ler ali.
- Ah, sim. O pai é... Deixa ver... Mina da Mata Black Diamond. E a mãe Estrada da Mata Gates of Va... Ah, não sei dizer isto aqui!
- Conheço os canis. São bons, mas não podemos cruzar. Ok, senhora?
- Eu pago! R$ 5 mil?
- Não é questão. Senhora, o Pijama é um dos nossos melhores cães. Todos os cruzamentos dele são muito bem pensados. Estudados. Ele deve cruzar com as melhores fêmeas. Se nascerem filhos dele e forem animais fora do padrão, desvaloriza nosso cão... E a sua cachorrinha, por exemplo...
- Vai dizer que tem defeito???
- Não é questão de defeito. Mas, por exemplo, eu acabei de ver no Instagram. Ela tem o rabo torto, e isso tira ponto.
- Ponto?
- O Pijama vai a exposições. Se um filho dele chegar com rabo torto numa exposição, vão achar que ele não é bom reprodutor.
- Hmmm. Entendi. E se a gente registrar na Cinobras? Ouvi falar que daí meio que não vale, né?
- Hahhaa. Não é bem assim. Mas não. Podemos até ver outro macho para reproduzir, já que a senhora parece estar estudando e interessada na raça mesmo.
- Nem pensar. Ela quer o Pijama! Já sei, tive uma ideia: a gente nem registra, ninguém fica sabendo. Eles cruzam, eu fico com os filhotes, a senhora finge que nem viu. Ou que foi sem querer. Que a cachorrinha apareceu aí, entrou no canil, o Pijama aproveitou e... Enfim, e cruzou.
- Senhora, não. Tampouco temos interesse em aumentarmos a população de pastores de shetland não registrada. Isso foge do controle. Daqui a pouco vai ter shelties no Meyer, na Tijuca, em todo canto, e nossas crias vão ser cada vez menos valorizadas. Sabe como é: aumenta a oferta... Não. Definitivamente, não.
- Nem se eu pagar? R$ 5 mil e ainda deixo a ração pros dias que ela ficar aí. 
- E a gente nem falou dos exames todos que exigimos de cada matriz....
- A Ive é super saudável. Nunca teve lombriga, girardia lamblis.
- Giardia lamblia!!!
- Isso, nunca teve, nem berne.
- Não é isso que quis dizer. Senhora, não dá. Não podemos realizar este cruzamento. Não é não, OK?
- Ah, é assim? Vocês são muito metidos a besta! E quer saber? Ouvi falar que vem aí o Tropical Shelten, e em uns 10 anos estes cachorros peludões tipo o Pijama nem vão valer nada! Vão ser desprezados!!!
- Tropical o quê??? Que é isso??? A senhora saiu da linha!
- Quer saber! Vou cruzar com o Brownie que faz agiliten! Garanto que o Pijama não pula nem cabo de vassoura!!!
- Agility!!!
- Isso. Agility. Tchau!
- Obrigado pela preferência, senhora. Boa tarde!


quinta-feira, julho 18, 2019

Tropical Sheltie

- Oi! É um lassie bebê?
- Isto! 
- Nossa, sempre quis ter. Mas não acho na OLX.
- Procure por Tropical Sheltie, Mini Cóllen Brasileiro ou MCB.
- Boa... Vou tentar...Linda cor... Como chama?
- Ah, obrigado. A Ive é Zibeline Mogno.
- Lindo... Minha amiga tem um pastor de cheddar. É igual, não?
- Shetland. Pastor de Shetland que diz. Mas são raças diferentes. O TS é como a evolução do Shetland. E foi a primeira raça do mundo com book de registro na Focinhobras.
- Que legal! E também tem daquela cor merlen?
- Merle não é bem cor... Mas no TS a gente tem, sim, azulado. Chamamos de mármore. Tem o TS mármore puro e o mármore canela.
- Isso. Mármore Canela! Muito lindo, já vi no Instagram. Será que tem na OLX?
- Deve ter, deve ter, mas recomendo ir pra Jundiaí num sábado. Tem muitos canis lá. Vai pela Bandeirantes, já começa a ver os outdoors dos canis. Para num Frango Assado e já te indicam um criador.
- Boa! Obrigado.
- De nada. Saudações tropicais.

segunda-feira, junho 10, 2019

Breve Inventário Mnêmico dos meus Colegas de Cultural

Devo ter entrado lá com uns 10 anos. E só saí com uns 17. Mais ou menos umas 450 aulas, em conta de bar... O diálogo da primeira, nunca esqueci. 
- Whats your name?
- My name is Julia. Julia Burns.
- Hello, Julia, I'm ___________. Nice to meet you.
- Nice to meet you too.
Foi minha dinda que me levou à primeira aula. Pra me ensinar a andar de lotação. Depois, ia sozinho, me achando homenzinho. Outros tempos... (quando eu tinha seis anos de idade, um psiquiatra xingou minha mãe porque não me deixava dar a volta na quadra desacompanhado).
De tantos anos de Cultural - na Riachuelo e em Petrópolis - guardo um diploma perdido numa gaveta, um inglês de me virar por aí e memórias rotas. Devo ter tido uns 200 colegas. E consigo recordar de menos de 10 nomes, além de informações e imagens perdidas na mente, sem nenhuma garantia de correspondência com a realidade. 
É nestas que me apego para iniciar este breve Inventário Mnêmico de Meus Colegas de Cultural, os quais 'lembro' com muito carinho.

Abrão
Era chinês. Quer dizer, taiwanês. Quer dizer, não sei. Com certeza, asiático. Mas se chamava Abrão. E tinha um irmão. Estudava no Rosário. Sempre que pergunto pra um rosariense se o conheceu, respondem que não faz sentido o cara ser taiwanês e se chamar Abrão.

Ananias
Não era esse o nome, mas assim o chamávamos. Referência a um personagem dos trapalhões, anãozinho. Ananias era baixinho. E inteligente - campeão de xadrez do colégio Rosário. Dedicava-se mais que qualquer colega ao inglês. Já nasceu com o sonho de se tornar diplomata. Espero que tenha conseguido.

"SRG"
Deste não lembro o nome. Talvez fosse Rafael. Vamos chamá-lo de Super Raça Gremista - porque era apaixonado integrante da organizada. Vivia fardado com a camiseta da torcida. Tinha cabelos longos e loiros. Última vez que o vi foi há quase 20 anos, no Rocky Point de Atlântida. Grande papo.

"Irmãos Wright"
Aos 14 anos, já eram aviadores. Ou queriam ser. Viviam no circuito do Aeroclube de Porto Alegre. Eram bonitos. Educados. E irmãos. Pensando bem, não sei se eram um ou dois. Se efetivamente eram dois, o mais velho era mais camarada. Espero que tenha(m) se tornado piloto(s).

Aretusa
Desta lembro mais do nome do que da pessoa. Mas era loira. Bem loira. Oxigenada, talvez. Tinha um corpanzil. Deve ter botado peito antes das outras meninas. Eu e um colega gostávamos de se referir a ela como "Aertuuuuudo a ver". Era sonoro.

Juliana Ribeiro
Tida como metida e antipática em alguns círculos torrenses, era um mimo em sala de aula. Doce de pessoa e risonha. Fez comigo English Through Pop Music. My name is Lucca. I live on the second floor. How can we dance when our earth is turning? Linda de dar inveja nas inimigas. É das poucas que ainda acompanho no Face e com quem cruzo vez que outra. Segue linda e é dona de uma confecção de moda em couro.

Jorja
Grande nome! Esta também era bonita Porém, um pouco mais miúda. Não era muito da zoeira. Mas como só lembro de pessoas boas, devia ser uma boa pessoa. A última vez que a encontrei foi há uns 10 anos no Country Club. Acho que a reconheceria hoje. Se ela sorrisse, sim, que tinha belos dentes. 

PG
Este era filho de juiz. Desembargador, até, talvez. Ou então, promotor. Procurador, quem sabe. Enfim, gente importante da Justiça. Morava nos altos da Duque, em um baita apê antigo e com vista para o Guaíba. Fizemos um trabalho de grupo na casa dele, mas isso não faz sentido, porque não havia tema de casa no Cultural... Quanto mais em grupo. Creio que se parecia com o Paulo Germano da ZH, por isso o identifico assim agora. 

Rodrigo Lorenzoni
Também conhecido como Urninha. Meu grande amigo de infância e até os dias de hoje. Vivemos grandes momentos no Aplicação, no Ribs ou no Cord, mas não lembro de nenhum no Cultural. Só tenho a impressão de que foi meu colega por um semestre, talvez no da Aretusa, embora isso não faça muito sentido. É veterinário, empreendedor e foi presidente do CRMV. 

Marcos
Ruivo flamejante, tinha cabelos lisos e em formato de cogumelo. Morava na Almirante de Abreu, bem pertinho da minha casa. Devia ir de lotação Rio Branco também. Nos cruzávamos seguidamente. Tinha um cão Akita. Akitas não são muito afetivos. 

Espero lembrar de outros com o tempo... E ir editando o post. Se quiser marcar colegas que fizeram Cultura, use os comentários :)
 

 
--
Sebastião Ribeiro
Diretor

Cartola - Agência de Conteúdo
(51) 9994-0519

quinta-feira, setembro 28, 2017



Então, vou contar a origem da expressão 'ficha rosa'. Agora tá na moda, por causa da novela da Globo, mas de há muito me intriga. Ouvi pela primeira vez anos atrás, referindo-se às recepcionistas de eventos que também aceitavam sair com os executivos. Em troca de uma boa remuneração, claro. Ficava pensando em como se abordava uma profissional em uma feira:

- Oi. Você é ficha rosa?
Ou fantasiava o momento em que eu seria abordado.
- Olá, esta injetora de plástico é perfeita para sua empresa. E eu sou ficha rosa.
Cheguei a ouvir (ou imaginar) que as garotas de programa usavam fichas rosas - destas de apostas em jogo de pôquer, redondinhas, plásticas - e as entregavam junto com o cartão de visitas, para dar 'o sinal'.
Também já ouvi falar da expressão 'book rosa', referindo-se a catálogos de modelos que faziam um pouco mais do que modelar. Em verdade, já vi um catálogo desses, em um hotel. Muitos hotéis, de luxo, inclusive, tinham seus books. Mas o que me foi apresentado não era rosa (a propósito, não utilizei os serviços ofertados).
No começo desse ano, perguntei a uma garota de programa famosa no Twitter o que era ficha rosa. 'Garotas de programa que só saem com os caras top, muito ricos', ela deu o reply. Mas eu estava lendo um livro revelador e respondi: 'Então vou te contar pra ti'. E expliquei.
Na década de 1960, nos Estados Unidos, a Playboy, a revista do Hugh Hefner, iniciou um ousado empreendimento: uma cadeia de clubes masculinos denominados Playboy Club. Abriram várias filiais. Diz a Wikipedia que o negócio funcionou até 1991 (depois ainda abriram uns isoladamente pelo mundo). Mas o forte mesmo foi nas décadas de 60 e 70.
Os Playboy Clubs eram clubes masculinos, onde homens se reuniam para beber (muito), provavelmente fumar (muito), admirar e ser atendidos por coelhinhas da Playboy. Vestindo a típica e diminuta roupa, elas eram as garçonetes. A disputa por uma vaga de coelhinha era enorme. Para se trabalhar nos clubes, as meninas tinham de passar por uma seleção rigorosa, na qual os atributos físicos contavam muito. E havia até exame ginecológico! Para ver se estava tudo em ordem, digamos assim, nos Países Baixos.
Lá dentro, elas seguiam um (nem tão) rígido código de condutas. Perdiam pontos se usassem salto baixo, se maquiassem mal, tratassem mal os clientes. Mas ganhavam muito se estimulassem o consumo de bebida. Daí a origem da clássica oferta das garotas de programas em boites especializadas Brasil afora? 
- Me paga um Martini…? 
Que com o tempo virou 'me paga um Keeeeep?' (renho amigos da praia que jé desembolsaram até R$ 50 por um Keep Cooler, só pra esticar o papo com a garota) e, por fim, o 'me paga um Marula com Rédi Bull?'. 
Mas nos Playboy Clubs era pra ser diferente. O manual das coelhinhas proibia-lhes sair com os clientes. Havia inclusive uma firma de detetives, a Willmark, com orientação de 'usar seus homens mais atraentes para fazer propostas às colehinhas e mesmo oferecer até 200 dolares'. Na prática, porém, algumas meninas eram demitidas porque se negavam a sair com gerentes e clientes com a Chave Um: os VIPs.
Bom, mas vamos ao que interessa. Para se tornar coelhinha nos Playboy Clubs, o primeiro passo para a menina era preencher com seus dados uma extensa FICHA ROSA. A origem da expressão é um simples fichário cor-de-rosa, e não uma ficha de poker, como minha imaginação construíra!
Onde eu aprendi isso? No Grande Livro do Jornalismo, editado por Jon Lewis, que traz reportagens históricas clássicas. Entre elas, uma de 1963, da Show Magazine, assinada por Gloria Steinen, que se submeteu, para a matéria, a todo o processo de seleção de coelhinhas. A propósito, sua reportagem repercutiu muito e fez Heffner acabar com o exame físico feito nas candidatas. 


quarta-feira, maio 10, 2017

Quer uma cortesia para o F5 Trend Hunting?

Trend Hunting - Tendências fresquinhas para seu negócio + conexão SXSWL
Trend Hunting - Tendências fresquinhas para seu negócio + conexão SXSWL Trend Hunting - Tendências fresquinhas para seu negócio + conexão SXSWL Luciana Bazanella é consultora, trendhunter, palestrante e professora nas áreas de marketing digital, gestão de mídias sociais, conteúdo e inovação. Leciona nas cadeiras da FGV nos MBAs em Marketing e Marketing Digital. É palestrante com presença em eventos nacionais e internacionais, como o SXSW, de Austin, no Texas, onde buscou inspirações para o seu mais recente TrendReport lançado ao mercado.  
Trend Hunting - Tendências fresquinhas para seu negócio + conexão SXSWL
  Empreendedores, Donald Reis (SEPRORGS/Qualitor) e Gustavo Hansel (GH Branding) se juntam à consultora Luciana Bazanella para bater um papo descontraído sobre o que rolou no SXSW 2017, em Austin (EUA). Na pauta, tendências do mundo da comunicação e tecnologia, além de dicas práticas para quem quer curtir os maiores eventos da indústria criativa no mundo, como o SXSW e o Web Summit, em Lisboa (Portugal).  
Trend Hunting - Tendências fresquinhas para seu negócio + conexão SXSWL
 

19h: Welcome Coffee

19h30: Palestra: Trend Report: as cinco macro tendências que são chaves para a inovação. Palestrante: Luciana Bazanella.

20h30: Painel: Conexão SXSW: o que rolou em Austin e como curtir os grandes eventos da indústria criativa do mundo. Debatedores: Donald Reis (SEPRORGS/Qualitor); Gustavo Hansel(GH Branding); Luciana Bazanella.

INSCREVA-SE AQUI

 
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Descadastre-se caso não queira receber mais e-mails

quinta-feira, junho 04, 2015

Um sabor reminiscente que me assaltou. Na casa da minha avó Maria e de meu avô José, tinha aqueles copos de metal. O corpo era colorido e o bocal, cor de lata mesmo. Eles ficavam em uma Frigidaire, daquelas com porta (bem) grossa e uma enorme maçaneta, praticamente um manche, para abrir. Lá dentro também ficava o Guaraná Antarctica "Champagne", garrafa de vidro. Tomávamos nos copos gelados. O gosto metálico do copo resfriado misturado com o do Guaraná Antarctica Champagne, isso que me veio agora.

sexta-feira, abril 17, 2015

Nota Legal (mas nem tanto)

Pois. Como ontem passei três horas e meia da minha nem tão preciosa vida arrancando cabelos da minha nem tão basta cabeleira, tentando extrair uma nota fiscal eletrônica, tomo a liberdade, sem a licença da Lucia Porto, de usar os comentários que fiz sobre o desabafo dela e de vários contribuintes do meu feed. Quais sejam:

1.

Eu só fico louco que tem um FDP ganhando muita grana com aquela leitora de cartão, e parece que é o mesmo que ficou milionário com a troca das tomadas, fabricando benjamins e adaptadores. Porra: é uma maquininha chulé, que o Banrisul dá de graça, nos custou 50 pilas porque nosso Departamento de Compra é Ninja e foi buscar na Assis Brasil, mas na Certisign e na maioria das lojas sai por 150 paus! CENTO E CINQUENTA DILMAS vezes o número de emissores de nota em POA: gira mais dinheiro do que toda a safra gaúcha de SORGO!

2.

Eu resolvi sozinho a bronca, laralaralala! Depoia de 3 horas, me senti como se tivesse concluído a Travessia do Pontal de Tapes. Primeiro, tive de instalar o driver da leitora de cartão; depois, atualizar o Java (atenção: "atualizar o Java" não é um eufemismo sexual); depois, tive de limpar cookies (tampouco "limpar cookies") e mexer numas configurações de Java, de novo ele, seguindo um tutorial. Ato contínuo, descobri que não tinha o programa da Certisign e o instalei. Ainda assim, o problema persistia. O SAC da Certisign me mandou fazer um teste e descobrimos que a falha era da leitora de cartão, aquela dos 50 pilas. Já estava com a leitora da Certisign, aquela de 150, no carrinho virtual de compras e planejando sair correndo pra buscá-la a seguir na Oswaldo Aranha, em frente ao Julinho, quando resolvi tentar uma última cartada: colocar o cartão de cabeça pra baixo na leitora. Bingo!!! É isso: é um esquema pensado para você terminar com a sensação de que a culpa é toda sua, da sua burrice! Ora bolas, estúpido: achar que o cartão deve ser inserido com a face pra cima...

3.

A mensagem que ralou todo mundo era a da 'applet'. Pois, esta da applet eu resolvi com um tutorial, mas é impensável pensar que o contribuinte tenha de ir até esse nível de configuração para poder emitir uma nota. Disseram pra ele que era simples, que ele podia ter empresa, que com um papel e uma caneta ele emitia uma nota. Podia ser em letra de forma mesmo. Ou cursiva, até. Não aceito nada mais complexo online do que um papel e uma caneta!

4. 
Resolvi o problema de "a applet não está carregada" aqui, no próprio site da Nota Legal de Porto Alegre:
http://notalegal.portoalegre.rs.gov.br/default.php?reg=29&p_secao=113&hc_location=ufi



sexta-feira, março 13, 2015

Então, naqueles 6 dias que Deus tava lá, criando o mundo, que no sétimo ele arreou na rede, teve duas epifanias. Tu sabe, epifania, aquele momento em que tudo se ilumina e faz sentido e blablabla. Tipo assim: dois momentos em que Deus encontrou Deus. No primeiro, ele criou o figo. Já tava demais, os seres já tinham algo que lhes daria um gostinho da perfeição, da plenitude, do absoluto. Uma pista de que Ele mesmo existiu e não tava ali pra brincadeira. Tava bom, mas daí o Cara teve outra epifania e dela surgiu a mulher. Porra, Deus já tinha feito o figo. Daí, pá, fez mais umas coisinhas sem importância, e quando já tava quase vazando, o Cara fez a Mulher. Velho, não é que o Cara fez tudo; é que Ele fez o figo e a mulher! Daí, correu pro abraço, deslizou pra rede pra tirar uma torinha no Domingo e se consagrou. O Pinta era fodido na lança mesmo!


Pais e filhos


Hoje foi meu dia de levar o piá ao colégio. Ele recém entrou na primeira série do primeiro grau - agora diz ensino fundamental. Ainda está deslumbrado com o 'colegião'.
Cruzamos a catraca de entrada, e eu pensando... até quando?
- Meu filho, mais uns dias e já dá pra te deixar aqui na roleta, né?
- Acho que sim.
- Sabe como chegar na sala?
- Sei. Se tá sol é pra ir pro pátio de areia e se tá chovendo é na área de convivência - sim, ele disse 'área de convivência'.
Atravessamos o patiozão de mãos dadas. E eu pensando... até quando?
Assim que chegamos à entrada do pátio de areia, o João sussurra.
- Pai, olha ali a Ana...
Aqui um parênteses. Em três semanas de escola, o guri já se apaixonou por três colegas. Primeiro a Rafa, depois a Lavínia, e agora a Ana. Quando penso nisso, me dá um orgulho. Garanhão! Mas daí me reprimo. Pensamento sexista! E se ele for gay? Só fala nas gurias, nunca nos guris. Se ele for gay, tudo bem, se ele for gay, tudo bem... fico me repetindo.
Olho pra Ana, magrinha, pequenina, duas caxuxas laterais. Está com medo de ir sozinha pro pátio de areia, enrabichada nas pernas dos pais. Olho para eles, esperando uma cumplicidade que não vem. 
- Então, esta é a famosa Ana?
- A-han. E esse é o João gremista?
- É!
O guri me dá um abraço apertado, de 20 segundos. Diz que me ama. Dá beijo. Às vezes ele faz isso. Fico pensando: será que vou morrer hoje? Ele previu algo? Por que esse abraço tão caloroso, assim, do nada? Até quando?..., eu penso.
Fico tonto com o abraço, com o beijo. Quando ergo a cabeça, ele já está dois metros longe. Deu a mão pra Ana. Eles se afastam no pátio de areia. De costas. Cada vez menores. Mãos dadas. Não olham pra trás. E é tão lindo! 
Viro de costas e me vou. Sim, ele previu. Eu morri um pouco hoje. E também morri de amor!

Te amo, meu filho!!!


domingo, fevereiro 15, 2015

Sei que era uma mansão, pelo espaço interno. Não posso dizer muito dela por fora. Vivia envolta pela cerração de Gramado, pelas araucárias e caneleiras. Mas isso não importa. A história vale pelos seus personagens. Jamais vou entender a relação entre eles. Era um Big Brother armado pelo destino. Todos ali para aproveitar a grande festa de Ibiza em pleno Festival de Cinema de Gramado de 2003. A atmosfera era de O Anjo Exterminador, filme do Buñuel: eu imaginava se repentinamente ficássemos presos ali, para sempre.
Mas vamos ao que interessa:

- Pintinho: um dos sujeitos mais boa-praça e generosos que conheci. No restaurante, fazia questão de pagar a conta da mesa inteira. Sempre com dinheiro vivo. Era de Caxias e tinha sotaque de gringo. Acho que morou na Itália um tempo. Trabalhava com máquinas de azar, num tempo em que não se sabia se isso era legal ou ilegal. Não duvido que fosse operador da loteria zoológica. Acaso se tornasse milionário, temo que não administraria bem a fortuna: gastaria tudo oferecendo os melhores jantares e as melhores viagens para os amigos. Era exímio cozinheiro. Chegou para o fim-de-semana numa caminhoneta tipo Pampa, caçamba aberta, tomada por tralhas de cozinheiro: panelas tipo wok, caçarola, de pressão, facas, um imenso queijo holandês, um fogão de campanha industrial. Preparou a melhor massa que já comi ever. Sonho com ela até hoje: espaguete na manteiga com molho e raspas de limão sciciliano. Al dente, perfeita, inesquecível.

- Tio Zeni: o mais velho da turma. Parece que já faleceu (sad...) À época, Tinha uns 40, 50 ou 60, não dava para precisar. Vivia acompanhado de um sobrinho de oito anos. Falava alto e desafinado. Tinha uma amável e proeminente pancinha e cabelos grisalhos pintados de dourado. Sotaque de gringo. Tão boa-praça quanto atabalhoado. Engraçado pacas. Na volta da festa, fumei um cigarrinho de artista com ele. Dentro do carro, pra não dar na cara do sobrinho.

Eu: solteiro. Idade: 24. Sabe-se lá por que aceitei curtir o fim-de-semana do Festival a convite de um casal de amigos, numa casa com um bando de desconhecidos. Andava em busca da paz. À procura do meu eu interior, sabe? Provavelemente era apenas reação a um trago monumental do fim-de-semana anterior. Ou, quem sabe, não. Fato é que prometi manter comportamento irrepreensível neste final de semana. A ponto de me tornar um coadjuvante naquela casa. Um mero espectador. Gosto de pensar que aquela jornada foi decisiva para que o casal de amigos decidisse me apresentar para a Rafa, irmã dele, cunhada dela. Afinal, não podia ser tudo mero acaso...

Os sócios:.eram bonitos. E fortes. Porte atlético, corpos moldados em academia. Muito parecidos, tinham sido sócios. E melhores amigos. Inseparáveis. Há um tempo, eram inimigos mortais. Alguma ronha na sociedade... A bronca tinha ido parar na justiça. Não se falavam há meses, anos. Eram adversários, rivais. Odiavam-se tanto quanto tinham se amado. A presença da dupla na mesma casa era motivo de tensão. Debaixo do mesmo teto, não trocavam olhares, muito menos palavras. Em determinado momento, nós, os homens, iniciamos um campeonato de sinuca: havia uma mesa profissional em um dos cantos da mansão - bem iluminada, jogo de bolas reluzente. Eram eliminatórias. Calhou que os dois se cruzaram na semi. Começa o jogo. Eles não se falam, cruzam olhares pelo reflexo das bolas. Lá pela pelota três, a tensão era tanta que nós, os demais, resolvemos deixar a volta da mesa. Os dois ficaram jogando. Caiu a primeira bola oito e começaram outra partida. E outra. E outra. E outra. E outra. E outra. Jogaram por horas a fio. Um adivinhava a jogada do outro. Mas não falavam. Juro: foi lindo! De longe, todo mundo se entreolhava: 'deixa eles, deixa eles...", dizíamos, baixinho. Espero do fundo do meu coração que depois daquilo tenham retomado a amizade.

Mariá: não foi à toa que a deixei por último. Era linda. Deslumbrante. De tirar o ar. Pele alva e cabelos negros, ondulados. Alta, magra, soberana. Mas dava para notar alguma fragilidade no olhar. Namorava um dos rapazes da casa. Era de Balneário. Não cansava de repetir isso. Me ensinou que quem é de Balneário, não diz Camboriú, nem Balneário Camboriú, mas diz Balneário. Tinha uma loja, lidava com moda. Vestia-se lindamente. Por volta das oito da noite do dia da festa, passou a ser o assunto da casa. É que tinha agarofobia. Ou agorafobia, não sei como diz. De qualquer modo: medo de multidões. E as festas da Ibiza eram um aperto, um povo, milhares de pessoas roçando ombros em um galpão. Davámos todos conselhos à Mariá, que não tivesse medo, que estaríamos junto, que na entrada faríamos uma espécie de cordão, o namorado dela a protegeria. Quando entramos na festa, a escoltamos. Depois, foi cada um pro seu canto. Ficamos sabendo que ela não aguentou o tranco. Voltou para casa às duas, e as quatro da matina pegou a estrada com o namorado com destino a Balneário. Temi pela vida dos dois. Mas sei que chegaram bem. Rezo todas as noites para que ela tenha melhorado da agorafobia. Ou agarofobia. Lembro dela toda santa vez que alguém diz que é de Camboriú ou de Balneário ou de Balneário Camboriú. Tenho verdadeiro carinho por todos que participaram daquele final de semana.

Julius Rigotto: devia estar em algum lugar VIP da Ibiza. Qualquer problema, era para falar com ele, nos orientaram os caxienses da casa. Não foi preciso. Mas não poderia deixar de citá-lo em uma história tão surreal.

* Obs.: essa história é baseada em fatos e pessoas reais. Baseada. Na verdade, é absolutamente fiel à minha memória. O que não quer dizer em absoluto que seja um relato fiel do que rolou. Pelo contrário: tenha certeza que minha mente modificou quase tudo ao longo desses 11 anos que nos separam desse final de semana.


De pandorgas e livramentos

Foi em agosto do ano passado. Fui levar o Emiliano em casa, conhecer o filho dele e da Amarílis, o bebê Miguel. Estava lá o pai dele, o Carlos Urbim, que faleceu hoje. Tinha passado por uma cirurgia, via-se muito magro e um tanto frágil. A morada da Av. América abrigava uma singela festa. Uns amigos mais chegados tinha ido comemorar o mesversário do novo integrante da família. Havia bolos, balões e uma serena alegria no ar.
Em determinado momento, o Urbim sentou-se no sofá e começou a contar uma história. Era uma história de pandorgas e de Livramento, de ruas e de 'gurizes'. Aquela fala arrastada e desafinada, como um eterno adolescente mudando a voz, começou a ganhar corpo. Cada vez mais alta e acompanhada por um olhar reluzente, contrastava com o corpo ainda adoentado. Dejá Vu. Voltei 25 anos. Estamos na sala das Alfas do Colégio de Aplicação. O autor de Um Guri Daltônico estava ali para contar umas estórias. Nosso encantamento de estar cara a cara com um escritor de verdade era tão grande quanto o estranhamento de saber que um escritor de verdade podia ter uma voz de mentira.
Sabe sobre o que o Urbim falava para aquela piazada de 10 anos? De pandorgas e de Livramento. Agora, sentado na poltrona da casa dele, eu não podia crer que contava exatamente a mesma história que eu ouvira no final dos anos 80. Que aquilo, lá atrás, não era uma palestra ou uma apresentação pensada para crianças. Era simplesmente o Urbim sendo o Urbim. E ainda assim, não conseguia deixar de pensar: quantas vezes o Emiliano deve ter ouvido essa história da pandorga? Tinha certeza que aquilo que me encantava devia irritá-lo: qual filho não se enche com os papos do próprio pai?
Um Guri Daltônico marcou minha infância. Junto com o Livro dos Porquês e Flicts, do Ziraldo (que fixação em cores!). Acho que era tão bom, porque, mesmo adulto, o autor parecia ainda ver o mundo como um menino. E assim foi nas pouquíssimas, mas sempre marcantes situações que o vi. Até mesmo no churrasco da nossa turma de formandos do Jornalismo, do qual o Urbim era paraninfo. Discutíamos a morte do Tim Lopes. Até que uma colega começou a argumentar que 'mas a Globo também teve culpa, porque blablabla'. Ao ouvir justificativas para a morte de um colega, o paraninfo sentenciou.
- Então te fode!
Instaurou-se um silêncio, seguido por gargalhadas. Era o que (quase) todo mundo ali queria dizer. A vida inteira interpretei isso como a sentença final, a voz da sabedoria pondo fim ao debate. Se o Urbim disse, então está dito. Amém. Hoje, no dia em que ele se foi, me dei conta do seguinte: não era um sábio, um Deus, um ídolo, nem mesmo o paraninfo, proferindo a sentença final - e que humana sentença! Era apenas um adolescente mudando a voz, dizendo simplesmente o que tinha vontade.

Um beijo grande pra toda família Urbim: Emiliano, Alice, Glauco.

terça-feira, dezembro 16, 2014

Num sábado, o vizinho acordou maluco. Eram oito da manhã e ele estava varrendo a calçada do outro lado da rua. Encheu três sacos de lixo com meladas flores de jacarandá. Era primavera. Mais tarde, foi visto lidando com o jardim do nosso condomínio. Saímos para almoçar e, quando voltamos, os canteiros estavam coloridos, tapados com as flores rosas recolhidas da calçada do vizinho. Lindo! Na janela do apartamento do maluco, uma placa: vende-se! Ao fim do dia, chegava o primeiro interessado em comprar. O apartamento era avaliado em R$ 80 mil. Ele pedia R$140 mil. Meu vizinho era doido. Meu vizinho era corretor.

domingo, maio 25, 2014

Venho por meio desta esclarecer-vos sobre três tipos de licença previstas em nosso direito consuetudinário, sendo as duas primeiras já positivadas e a terceira em vias de positivação: 
- LICENÇA GALA
- LICENÇA NOJO
- LICENÇA PRA DOIS ENTREGA OS TACO:

- LICENÇA GALA: "O empregado poderá deixar de comparecer ao serviço sem prejuízo do salário: até 3 (três) dias consecutivos, em virtude de casamento" Art. 473 da CLT 
- LICENÇA NOJO: "O empregado poderá deixar de comparecer ao serviço sem prejuízo do salário: até 2 (dois) dias consecutivos, em caso de falecimento do cônjuge, ascendente, descendente, irmão ou pessoa que, declarada em sua Carteira de Trabalho e Previdência Social, viva sob sua dependência econômica." Art 473 da CLT
- LICENÇA PRA DOIS ENTREGA OS TACO: "os jogadores poderão deixar de manter os tacos no seu buraco tão logo assumam a posição de time rebatedor, por tempo indeterminado, até o pedido de DESFEITA PRA DOIS, desde que um deles brade em alto e bom som: LICENÇA PRA DOIS ENTREGA OS TACO." Art 35 do anteprojeto de projeto de lei da Consolidação das Leis do Tacobola.

Cumpre informar-vos, ainda, a descoberta, por este jurista diletante, de uma outra licença deveras relevante:
LICENÇA DOAÇÃO DE SANGUE: "O empregado poderá deixar de comparecer ao serviço sem prejuízo do salário: por 1 (um) dia, em cada 12 (doze) meses de trabalho, em caso de doação voluntária de sangue devidamente comprovada" Art 473 da CLT . Cumpre salientar, ainda, a título de glosa, que tal licença, segundo alguns juristas, não necessariamente deva ser gozada no exato dia da doação, podendo, portanto, ser gozada "em uma sexta-feira qualquer". Dica deste empresário: não goze em uma sexta-feira qualquer.

segunda-feira, dezembro 16, 2013

Devagar se vai ao longe; mas já não se encontra ninguém

Olho para o lado e vejo um pouquinho dele em quase tudo de importante que construí. Minha família, minha casa, meu trabalho... Era meu psiquiatra há 17 anos. Morreu neste sábado, o Outeiral.

Tudo foi como tinha de ser. Em honorários, paguei uns 50 cavalos de polo ao longo da vida para ele, como costumava brincar. Ele me retribuiu ajudando a transformar aquele adolescente imaturo e cheio de medos em um homem, em um pai - tão orgulhoso como ele mesmo era.

Dezessete anos. Uns mil apertos de mão de oi. Outros mil de tchau. Assim deve ser entre médico e paciente. Nunca um abraço ou um beijo. E nunca fez falta. Só hoje.

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É como se eu soubesse a posição de cada livro nas prateleiras do consultório; de cada quadro e objeto. Mas, de todos, o meu preferido era este ursinho de madeira. Segundo consta, presente da filha, Júlia. Ano passado, fiz questão de fotografá-lo no divã. Em tempos, sem interpretações hoje, por favor.

"DEVAGAR SE VAI AO LONGE, MAS JÁ NÃO SE ENCONTRA NINGUÉM" (esta frase acompanhava o desenho de um homem sobre uma tartaruga; se não me engano, são do Millôr Fernandes, a frase e o desenho. Mas não tenho certeza...)


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* Texto publicado dia 21 de julho, após a morte do psicanalista José Outeiral, no meu Face. Mas confio mais no Blógui, pras coisas que quero guardar...


Um dia naquele verão...

O telefone tocou. Fixo. De disco. Decerto, nem tinha celular. Ou tinha e a gente não usava. Ou tinha e não pegava em Torres. Pra lá, a comunicação era no 664.
- Ahn?
- Sébi? Como é que tão as coisas?
- Ahn? Ah, bem... Bem... Hmmm...
- E a confusão?
- Oi? Que confusão?
- Não ouviu nada? O Português se matou. Matou a mulher. Aí na casa da frente. Todo mundo falando. Tá no rádio.
- Peraí.
A casa estava escura só os feixes da luz passando pela persiana, sempre fechada. Podia ser 8h, 9h, 10h...14h, 15h... Atravessei a sala, abri a porta, o sol cegou, fechei os olhos, abri, fechei, abri, fechei, a cachola latejando. Tinha polícia, IML, o escambau. O coração acelerou. Acordei. Voltei pro telefone.
- Diz que ele atirou nela e...blablabla
- Beijo. Vou ver.
Que jornalista de merda sou eu. Tiros na minha janela, quantos? Um, dois três, dez? E eu dormindo. Minha Pentax na mesa de cabeceira. Agarrei a câmera e saí correndo. Abri e porta, vi os polícias retirando o corpo. Parei. Dei um passo pra dentro de casa, atirei a câmera no sofá, fui até a cozinha, peguei um pão-de-minuto do Farol, saí, tranquei a porta, cruzei pelos curiosos aglomerados na calçada, atravessei a rua, adentrei a praia,como sempre, o sol agredindo a vista, como sempre, a areia queimando a sola, como sempre, a corrida até o mar, como sempre, e o mergulho na primeira onda, como sempre... Depois, vinte minutos de caminhada até os Molhes, a cachaça saindo pelos poros, a primeira cerveja na barraca do Fabiano, e então, de repente, como sempre, a cabeça já não mais dia, o esôfago já não mais ardia, a luz do sol já não machucava.

Guardo até hoje o negativo daquele verão. Contra a luz do abajur, revejo o tombo da Maria no luau de Itapeva, o finado Roberto descendo o escorregador da cachoeira de pé, um detalhe do paralelepípedo das ruas de Torres...  E só. E já era demais. Muito mais do que eu poderia imaginar.

quarta-feira, abril 24, 2013



Se você pensa que cachaça é água...

Era no tempo das marchinhas. E dos bailes. Quando ainda se dizia "pular" carnaval.

Ô balancê, balancê...

Só se dizia. Porque naquele 1995 dançava-se de um modo muito peculiar. Caminhando. Um folião podia andar quilômetros em uma mesma noite. Em círculos.

Chegou, a turma do funil...

É difícil explicar uma rodinha de Carnaval. Na Sapt, em Torres, tinha um raio de mais ou menos seis metros. Os foliões dançavam abraçados, em fileiras que convergiam ao centro.  Sempre andando em círculos. Era mais ou menos como uma roda de moinho.

As águas vão rolar...

No centro da rodinha ficavam os guris. E as gurias mais despudoradas. Fingindo não sentir uma, duas, três, dez mãos alheias, roçando-lhes a bunda. Tirando melzinho.

Caiu na rede é peixe...

Nas escadas, nos corredores, nas sacadas, um tempo para a contabilidade. E aí, quantas? Oito! Bah! E tu? Peguei quatro. Até agora. Hahaha. E tu, Bastião? Duas.

Tem francesinha no salão...

Ela usava uma camiseta do Penharol. A clássica, listras amarelas e pretas. Cabelos castanhos, uma tranca escorrendo por cada lado do rosto já lavado de suor - mas isso é só imaginação. A verdade é que não lembro. Deu uma, duas, três voltas na rodinha. Vou ou não vou? Quatro, cinco voltas. Não fui. Ela escapou da roda, parou na minha frente e me beijou. Beijo roubado, beijo de língua, beijo raspado.

A Canoa virou...

Assim como apareceu, se foi. Sem dizer nada.


Um pierrot abandonado...

Foi meu primeiro beijo.

Bandeira branca, amor...

Só sei que foi no carnaval de 1995, na Sapt, em Torres. E que ela vestia uma camiseta do Penharol.

Pã-pã-pã-pã-pã-pã!

quinta-feira, março 29, 2012



A Dieta do Bolo

Como assim, vocês ainda não sabem, gurias? Deu até no Blógui do Tião e tudo! É mais in do que a dieta do óleo de côco e superior a todas as outras dietas da moda ever - dieta da lua, dieta do tipo sanguíneo, dieta do butiá, dieta da USP, dieta dos chipirones, dieta dos pontos...
Então, meninas, a última é a DIETA DO BOLO! Provavelmente a mais revolucionária depois da do Dr. Atkins. Foi formulada pela equipe de nutrição do Hospital Moinhos de Vento, aperfeiçoada pelo jornalista e eterno gordo Sebastião Ribeiro, e recentemente ganhou o mundo ao ser adotada pela Angelina Jolie e pela Kim Kardashian, que já a batizaram na América - a do Norte - de Cake Diet.

Primórdios e funcionamento original
No café da manhã, pessoa come dois pães borrachudos, de 50g cada, com uma fatia de presunto, outra de queijo, um tablete de margarina tão rançosa que ninguém ousaria ingerir, um tablete de geleia Ritter que nem McGyver conseguiria abrir e café com leite. Frio, claro. No almoço, um peito de frango ou um bife tão secos que rasgam o esôfago, uma porção de arroz, uma de legumes, uma canja de galinha sem sal e sem galinha.
Desse jeito, pode imaginar, chega determinado momento vespertino em que pessoa já está desesperada, deitada na cama de um hospital, tendo um mini-AVC, sem direito nem aos prazeres da gastronomia. É aí que acontece a mágica. Prestenção, este é o cerne da dieta. Merece Enter duplo e parágrafo único.

Quatro da tarde. É quando a enfermeira chega com a bandeja e, no prato, o sujeito se depara com a melhor, mais bela e maior fatia de bolo que jamais teria coragem de comer em situação de dieta, acompanhada de um acolhedor cafezinho com leite. Em resumo, é o grande momento do dia. O instante em que o paciente para e pensa: vale a pena viver. Mas atenção: para que a dieta dê certo o bolo tem de ser saboreado da seguinte maneira: um imenso naco que enche a boca e dá sensação de saciedade e plenitude, uma mini mordidinha para fazer render, um imenso naco que enche a boca e dá sensação de saciedade e plenitude, um imenso naco que enche a boca e dá sensação de saciedade e plenitude, uma mini mordidinha para fazer render, um imenso naco - ops, acabou.

Até o jantar, viver é rememorar o prazer do lanche da tarde. Quando chega enfim a janta e você se depara com algo como o almoço acrescido de um iogurte Batavo para guardar de ceia, recomeça o calvário, a espera pelas 16h do dia seguinte.
Ah, já ia esquecendo, importante: os exercícios! Que exercícios, rapaz? Eu estou na cama há 19 dias e nem banho de pé consigo tomar. Ainda assim, já perdi 5 quilos com a Dieta do Bolo. Estou magérrimo, podem imaginar!!! Afinal, só faltam mais 18 quilos.

Aperfeiçoamento e formação atual
Agora, você que é normal, anota aí a Dieta do Bolo já aperfeiçoada pelo Tião. Funciona bem para p’ssoa gorda.

DIETA DO BOLO
Café da manhã:
- Uma fatia de pão light com presunto e queijo e outra com um pouquinho de geleia; café.
ou
- Duas fatias de pão Scwharstztssbrostszs com fatias de ricota e pingos de mel.

Lanche da manhã
- Uma frutinha básica, baby.

Almoço
- Um ou dois bifes, legumes e salada à vontade, uma porção de carboidrato, tipo arroz ou batata assada (pode substituir por duas POLENTAS FRITAS que sobraram do galeto de domingo).
- De sobremesa, Café do Mercado moído e passado na hora e uma barrinha (não te emociona, é um quarto do pacote) de Kit-Kat. Sim, pode vibrar: a Dieta do Bolo tem Kit-Kat!

Lanche
- Um bolo mármore ou uma cuca de uva (elas devem estar estonteantes com esta safra) comprados na Confeitaria Max. A fatia deve ser quase gigante, mas não tanto (equivale a duas fatias de pequenas a médias). Tomar com café com leite. E esse lance da confeitaria aí é só se você não tem uma esposa querida e doceira, como eu, tá?

Lanche II
- Maçã. Da Mônica, né gente? Daquelas bem pequetitas. Tá, pode ser uns bagos de uva ou a melhor fruta do mundo: figo (neste caso, dois, porque é impossível comer só um)!!!

Jantar
-Uma refeição congelada pronta Brubins ou whatever de até 550 calorias.

Ceia
- Um figo ou um Activia, para seu intestino funcionar bonitinho, que nem o da Patrícia Travassos.

Madrugada
- Uma fatia imensa daquele bolo da tarde (só em sonho, ok?)

quinta-feira, março 01, 2012

  

Estou jogado na rede da varanda - era no tempo em que as casas tinham varanda. Domingo, com certeza, o último de fevereiro ou o primeiro de março. Só se ouve o rugido abafado do mar e as pauladas nas tábuas de madeira. São os vizinhos colocando os tampos nas janelas. O último vai na porta. Se ninguém vier na Páscoa, será uma gestação de nove meses de mofo e escuridão até a casa ver a luz do sol de novo. Sim, há a caseira que, supõe-se, abre tudo uma vez por mês, mas a frase ficou melhor sem ela...

De nada adianta pedalar até os amigos. Quem não se foi para fugir do espetáculo, está arrumando as malas. Resta-me a rede e a varanda da casa do tio Paulo no último dia do verão de Torres. Não foram um nem dois domingos assim. Alguns, para ser bem preciso. Por que eu permanecia? Por que sempre a última carona, o último ônibus? Como se algo ainda pudesse acontecer. Algo...

Não me movo. Não há saída de emergência. Fecho os olhos. Cada martelada nos tampos, uma fincada no estômago. Dói. Então me concentro. Inspiro a maresia. Curto como se fosse a derradeira tomada de ar, e alguma será.

Eu fico até o último 'vamos Sebastião', até a buzina que anuncia a morte, até o bus das onze. Eu fico porque preciso.

Amanhã tem aula. E, até lá, tudo menos o Fantástico.

 

segunda-feira, setembro 05, 2011

Your secret from Jean-Sebastien Monzani on Vimeo.



Não precisa ver o vídeo. É bobo. Quase ruim. Quase piegas. Quase me fez parar. Parei. Fechei os olhos. Pensei: as coisas mais lindas de minha vida, não consigo traduzir em palavras. Era este o dom que eu queria ter. Imprimir beleza num acolherado de letras. Ou em uma roda de prosa. A coisa mais linda da minha vida era caminhar descalço no paralelepídedo de Torres, cravar o dedão nas fendas das pedras e com ele impulsionar um tantinho de areia entranhada pelos ares. A coisa mais linda da minha vida aconteceu no Largo da Sé, em Olinda. Uns dez negrinhos jogavam bola descalços no cimento, duas havaianas para cada goleira. Dois deles usavam tênis Nike, camiseta pra dentro das calças, falavam inglês, tinham pais - por suposição - adotivos - por suposição - gringos - por certeza - que os admiravam de fora de uma cancha que não tinha fora nem dentro. Ali do lado, a Igreja da Sé, lá embaixo, o mar de Pernambuco, lé em cima o sol do Brasil, aqui dentro um arrepio. A coisa mais linda da minha vida, eu não sei contar com palavras, mas tem a areia e a espuma das ondas da praia da Gamboa, um céu nublado, um vento frio, o som do mar bravio, a Rafaela e o João.

domingo, maio 01, 2011

Ernesto Sabato levou 99 anos para morrer. E nesse tempo todo não li uma linha escrita por ele. No máximo, o livro "Borges - Sabato. Diálogos", uma conversa entre os dois. Por ocasião do falecimento do segundo, peguei a publicação agora, para ver se havia something to quote. Há várias páginas marcadas com orelhas e uns tantos sublinhados. Mas apenas unzinho com palavras do Sabato. E só porque o papo era jornais.

"A notícia cotidiana , em geral, é levada pelo vento. O mais novo que há é o jornal, e o mais velho, no dia seguinte. (...) Seria melhor publicar um periódico por ano, ou a cada século. Ou quando acontece alguma coisa importante: "O Senhor Cristóvão Colombo acaba de descobrir a América". Título em letras garrafais."

E só. Em 170 páginas. Donde eu posso concluir, dirigindo-me à amiga Cris Lisboa: se tivesse de convidar um dos dois pra um churrasco, chamava Borges, e não Sabato.