
Sou ou não sou o gremista mais lindo do mundo?
"Não leio blogs; só o do Tião, porque é relevante", Filipe Maia, jornalista. "Às vezes o Tião escreve direitinho", Daniel Gallas, presidente. "Não gostar do Tião é uma falha de carácter", Rodrigo Müzell, jornalista. Sebastião Ribeiro é jornalista e mora em Porto Alegre. Leva uma vida pacata com a mulher e dois filhos em um apê no alto Rio Branco. A propósito, teu cu de bobes.



Telemarketing.
- Boa tarde, Sebastião Ribeiro.
- Olá, Seu Sebastião, meu nome é Tatiane. Faço parte da empresa Angelus. Você conhece?
- Ahn... Deixa eu ver... Funerária???
- Sim, exatamente. Eu estou ligando para lhe oferecer um plano que vai passar mais segurança para o senhor e sua família.
- Ah, é? Como é isso?
- É o seguinte: por apenas R$ 40 por mês o senhor terá um seguro que garante funeral para o senhor, a sua esposa, dois filhos, dois sobrinhos, com todas as despesas pagas.
- Desculpe, não entendi. Como os sobrinhos entraram na história? São dois filhos OU dois sobrinhos ou dois filhos E dois sobrinhos?
- Os dois. Filhos e sobrinhos. E, se ocorre uma fatalidade, terão caixão ou cremação paga, coroa de flores, todo apoio na parte burocrática, de encaminhamento de documentos, túmulo em cemitério. Temos convênios com os melhores cemitérios de Porto Alegre. Santa Casa, São...
- Ah, é? Com túmulo para sempre? Digo, perpétuo?
- Não. Por três anos. Ah, e também temos convênios de atendimento médico.
- Como assim? Tipo plano de saúde? Em qualquer ocasião ou para emergências ligadas às dores da perda.
- É isso mesmo, algum atendimento de emergência nessa hora, com cardiologista, neurologista... Temos convênio com a clínica...
- Ah, bom. Mas, sabe que eu estou achando meio caro. R$ 40 por mês... Se eu colocar isso na poupança, espero que até acontecer (toc, toc, toc) alguma coisa, eu tenha mais condições.
- Mas o senhor veja, pagando R$ 40 por mês, em seis meses, por R$ 240, já teria todos os gastos cobertos em caso de fatalidade.
- Ah, não. Desculpa, mas eu não pretendo morrer daqui a seis meses. Mas muito obrigado. Vou avisar meus amigos sobre o plano.
- Boa tarde. Fique com meu telefone. 3072-3217.
Há duas horas tentando entender e acessar o "gerenciador financeiro" do Banco do Brasil. O troço é tão kafkiano que tem chave de acesso, senha da chave, código de cadastramento do computador, senha do teclado virtual, especificação de 1o ou 2o titular, sem contar número da conta e da agência... São ao todo 39 caracteres para inserir, Diante disso, o home banking Banrisul, com a sua senha de três letras, parece fichinha.
Meu colega Daniel Marenco está matando a pau na cobertura da seca (e do fim dela) no interior do Estado. Esta foto do colono pulando a vala está sensacional. É o alemão bancando Cartier Bresson. Só que em vez dos fundos da Gare Saint Lazare, em Paris, os fundos dos fundos do Rio Grande. Para ver mais do trabalho dele, passem no blógui: http://provacontato.blogspot.com/. Vou roubar mais uma foto e um texto publicado lá, para dar o gostinho.
"A chuva fez do pó o barro e da tristeza a alegria. Para os açudes a água, para o pasto o verde e para o boi os quilos. Para os rostos o sorriso e para o colono a vida. A estiagem amenizou e a esperança tá renovada. Há quem ainda demore a se esquecer da dor de não ter o que dar aos seus animais. De não poder se lavar bem depois da nuvem de pó. Dos dias que quase faltou o que beber. Mas hoje eles comemoram. O frio que veio junto não assusta. Cedo é tarde e já é hora de voltar para a roça. De plantar, de buscar mudas da árvore que for. Eles querem é mexer na terra. Na terra outra vez encharcada.
Era pra ser uma janta no KOH PEE PEE, que devo pra Rafa porque joguei na Priscila contra o Max, mas o Brasil me decepcionou e eu agora tenho de me submeter à cozinha tailandesa (ai, que sacrifício!). Só que cheguei em casa e estavam minha mulher e meu filho de pijamas, de forma que tivemos de providenciar uma telentrega. Como a lua cintilava e a sexta-feira era Santa, achamos por bem que nada da porcaria do ruim e barato SUSHI DRIVE (este não merecia caps). Para variar, ligamos para o SASHIBURI, não se compara com o SAKURA, mas bem melhor do que a opção econômica. Para comer, sentamos no chão escorados no sofá e pusemos as peças sobre a mesinha de centro da sala. Abrimos uma MOËT & CHANDON, presente dos meus pais, que há meses esperava uma ocasião especial. Instalamos o pequeno João em seu bebê-conforto BURIGOTTO (putz, ainda se fosse CHICCO) sobre o sofá. Para distraí-lo, uma programação especial na nossa telona: o DVD BABY MOZART, da série BABY EINSTEIN. E assim devoramos o combinado. Ao fim, íamos comer a tradicional barra de MILKA, mas devido à solenidade que adquirira o momento abrimos a caixa de bombons DUAS CARAS KOPENHAGEN que estava reservada para hoje. Está aí o meu ideal de felicidade: um sushizinho com champagne em uma noite moderadamente sofisticada ao lado da mulher e do filhote.
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E já que o papo é ideal de felicidade e noites moderadamente sofisticadas, seguimos no sábado. Se tem coisa que me deixa alegre é fazer um churrasquinho. Sou um dos sujeitos mais preguiçosos, mas quando o assunto é preparar uma carninha estou sempre lépido. Adoro a função, desde a compra do carvão até servir o último pedaço de entrecot, limpar os espetos exclusive. Manejar o resfriamento da cerveja (sou fraco nisso), fazer o fogo, servir o aperitivo, sou pura disposição. E quanto mais amigos em volta, melhor. Assim foi a noite de sábado.
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Agora não tenho mais dúvida alguma. Anote aí: a carne certificada ANGUS é melhor e mais macia que a carne certificada HEREFORD. E ponto final. Não digo isso por um único teste. Foram dezenas de experiências até eu ganhar coragem para me posicionar sem medo de errar. Notem que não quero dizer que a carne da raça angus é melhor do que a da raça hereford. Para ser sincero, acho até os hereford mais bonitinhos, aquela carinha branca em um corpo todo marrom é pura simpatia. Até pode ser que a carne de uma raça seja melhor do que a da outra. Mas acho mais provável que o programa de certificação angus tenha um controle de qualidade sobre os animais terminados melhor do que o programa hereford. Atenção: a minha comparação é entre os cortes das duas raças vendidos no Zaffari.
Ainda que encravado na badalação da Dinarte Ribeiro, o Daimu está sempre entre a cruz e a escada, mas quero falar mesmo é sobre cabeça de peixe. Entre a cruz e a escada porque, do alto de um promontório, brigará sempre para acolher clientes. As pessoas gostam de dar uma espiadinha nos restaurantes que surgem. Mas, se há entre elas e a porta algumas dezenas de degraus, se retraem. Menos por preguiça do que por constrangimento. Ficam com vergonha de desistir da empreitada depois de subirem tanto.
Mas eu realmente recomendo encarar as escadas do Daimu. Feche os olhos, confie e suba. Lá em cima, uma hostess, com sorte ela se chamará Satoko e será muito simpática, lhe dirá:
- Ajumnhgsknnaijêê!
Presumo que seja boa noite ou bem-vindo e respondo:
- Ajumnhgsknnaijêêêêê!
O que obviamente é uma resposta equivocada, caso a saudação seja bem-vindo. Mas adoro japoneses e acho eles tri engraçados e não me importo com a possível gafe. O ambiente do restaurante é bem bacana, super design, sabe? Linhas retas, tons de berinjela e branco, parede trabalhada com tijolinhos irregulares de madeira. Mudérrno e de bom gosto. Mas isso é frescura e estou aqui para falar de... bom, vocês já sabem.
Acontece que dia desses meu cunhado Tiago Ritter teve no Daimu e me jurou, com os dois (e não haveriam de ser três) pés juntos e beijinhos nos fura-bolos em cruz, que tinha uma família de japas traçando uma cabeça de peixe lá.
- Nãããããão! Sério, meu???
E ele jurou de novo daquele jeitinho, de forma que o cabeça oca aqui preencheu a cachola com a idéia fixa de provar o prato. Tem toda uma coisa de ter de ligar antes quando for pedir a iguaria (www.daimu.com.br), acho que para dar um tempo de o chef decapitar o peixinho. Eu não sabia disso, mas tive a sorte de comparecer justo no dia e que aqueles japas tinham novamente passado por lá e traçado quatro cabeças, deixando apenas uma, para quemquemquem? Na mosca: para mim mesmo, Tiãozito, el devorador de cabezas. Juro com pés juntos e beijinhos nos fura-bolos em cruz.
O garçom explicou que a peça, se assim podemos chamar, vinha cozida no shoyu, com alguma coisa de gengibre, açúcar, ervas e temperos secretos do chef. Mandei vir, a um só tempo empolgado e temeroso. Foi com alegria que vi chegar aquela cabecinha de cheia de dentes serrados do Peixe Pargo. Dourada, com um molho escuro reduzido, cheio de frescor do gengibre, adocicado, mas não tanto para borrar por completo o tempero do sal. Umas ciboulettes verdinhas por cima davam o toque final.
- Ei, amigo, dá pra me explicar como se come isso? – perguntei ao garçom, dispensando a formalidade.
- O senhor pode procurar o que houver de carne aí dentro. Se quiser, pode usar a mão também. Eu lhe trago depois um pano úmido quente para limpá-la.
Ah, era tudo o que eu queria ouvir. Dei início à Operação Cabeça de Pargo. Foi muito mais fácil do que se pode imaginar. Incrível o que se pode extrair de carne da peça; uma carne bastante macia, um pouco mais forte do que a do filé, mas não a ponto de causar estranhamento ou deixar algum tipo de catinga – sabe catinga, né? Tipo de ovelha lanuda, peixe estragado...etc? Não, a carne já é adaptada ao paladar mais banal. O único senão pode ser o visual: aquele peixinho ali, com os olhos baços e mareados, um olhar triste e ainda os dentes serrados, ameaça inofensiva. Garotas e rapazes sensíveis podem não gostar.
Mas o melhor de tudo, tenho de admitir, não é nem o sabor convidativo. É a batalha, o desafio de virar e revirar a cabeça, com a ponta dos dedos e os hashis. Traçar bochecha, escamas, língua e miolos (se é que peixes têm línguas e miolos). Comer tudo, incansavelmente, até restarem apenas os ossinhos e cartilagens no prato. E então, a satisfação de ver aquela cabeça estraçalhada, suprema vitória marcada por mãos e beiços lambuzados, resquícios de um adversário totalmente derrotado. Ou quase totalmente. Ali ainda ficaram os olhinhos baços e tristes, testemunhas oculares da devastação, escondendo, lá no fundo, a ameaça de vingança, a regeneração do monstro.
Não, não cometerei esse pecado de novo. Da próxima vez, vou até o fim. Como, ah se como aquelas duas bolinhas viscosas e borrachudas. Ainda que me revirem o estômago. Me aguardem.

Com o João, aprendi o real sentido da palavra inocência. Meu filho é a primeira pessoa que conheci totalmente isenta de culpa. Dele, eu tudo relevo, tudo perdoo. Até as ofensas mais ignóbeis, como mijar no papai, lançar um jato de cocô na roupa da mãe ou abrir o berreiro no meio do último capítulo d'A Favorita. Alguém pode dizer: que coisa óbvia! Mas uma coisa é saber como funcionam as coisas; outra é experimentá-las. Certamente a palavra inocência tem um significado diferente para nós, pais e mães, do que para o resto do mundo.
Meu filho não tem culpa de nada. Está com fome? Culpa da mãe, que não ofereceu a teta. Arranhou-se com as prórias unhas? Culpa do pai, que não ficou de olho. Foi picado por mosquitos? Culpa nossa, que não o cobrimos. Creio que é dessa inculpabilidade da criança que advém o sentimento de escravidão na nossa relação com os filhos. Qual o pai que não se surpreendeu ao se ver, pela primeira vez, escravo de uma coisinha de apenas 4 quilos (o João já tem seis) e poucos dias de vida?
No fundo, até isso é culpa nossa.