domingo, junho 15, 2025

Só em Parintins

Daí eu cheguei no meu quartinho, digo, cativeiro alugado em Parintins. Falei pra dona do lugar: "bah, preciso passar no aeroporto. Como e o melhor jeito de ir?" Ela: "Vai na minha moto". Eu: "Não tenho carteira de moto". Ela: "Não precisa". Eu: "Teu capacete não entra em mim". Ela: "Não precisa". Eu: "Você não está entendendo, eu nunca andei de moto, eu não sei pilotar, eu só ando de bicicleta." Ela: "É igual, só tem marcha. Pegue minha moto". Eu: "Tá bom, já que você insiste." E fui, na moto dela, sem capacete, sem carteira, tomando solavanco a cada troca atrapalhada de marcha. Só em Parintins, combinação de maluca muvuca e povo hospitaleiro.

quinta-feira, fevereiro 06, 2025

Frases e aforismos

Susana: "Isto é problema meu / Isto é problema dela"

Pati P.: "A socada é determinante!"

Karin3 A.: "Eu me apaixono em espanhol."

sexta-feira, janeiro 31, 2025

Carta à cerimonialista

Margarida! 

Eu me separei. Faz 12 meses. A Rafa quis. Eu não tava esperando. Fiquei devastado, mas passo bem, super bem, aliás. Ano passado eu morri, mas este ano eu não morro. Na hora que ela falou, me debulhei em choro e desespero. Disse: "tu fez o dia mais feliz da minha vida, o do nosso casamento; e agora, tá fazendo o dia mais triste". Peguei minhas coisinhas e fui embora na hora. Tá tudo bem entre nós. Nos damos bem, nossos pais passam férias juntos,  às vezes saímos com as crianças, mas nunca mais ficamos, nem pensamos em voltar. Só ainda fico triste de não passar a velhice ao lado da mãe dos meus filhos. Com a mina que saio, brinco: "putz, não posso casar na igreja, já gastei minha cota, quebrei o juramento". Uma das primeiras pessoas que vi ao me separar foi a Valéria, que me vendeu a aliança. Eu estava muito gordo e a desgraça não saía do dedo. Fui na ótica dela e disse: "tu me vendeu esta p*rra, agora tu resolve". O marido dela pegou o alicate e quebrou. Foi uma comédia, todos rimos, nós e as funcionárias da loja, que acompanharam o show. E assim foi... 

Achei importante te contar...

terça-feira, dezembro 31, 2024

De bailados e amores jamais vividos

Imagina esta dança

Imagina... Todos nossos beijos apaixonados no meio das ruas, atravessados pelo ventinho da madrugada, sexos suarentos nas coxias da vida, vergonhas tuas por valsas (mal) dançadas por mim nos bailes, todos meus aplausos orgulhosos ao fim de todas as tuas apresentações, e sempre aquela vontade de gritar pra plateia: esta é a minha dançarina, minha! Imagina... todos os reveillons passados na praia, nossos filhos misturados, todas nossas brigas, todas as caipiras em mesas de plástico na calçada, todas as manhãs de domingo no cachorródromo, todos os mates jamais cevados, nossa paixão que nunca houve nem haverá bailando pelos ares, embalada pelo ventinho, dançando no vácuo do universo com todos os amores não vividos deste mundo! Imagina, Karine, que lindo, Karine...


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Lado A

Ela, numa tarde qualquer de pandemia, dançando sozinha no beco, tão alegre, tão solta, tão linda.

Ela, um boné, um headphone, uma rua. Ela, na parede do Ocidente, na parede do Babilônia, na parede. Ela, Meu Erro, palha mascada na tela, botoneira sem manual de instruções. Ela, preservando a intimidade da casa revirada (o que teria na gaveta da mesa de cabeceira?). Ela, "eu gosto de sexo", "eu fui fofa, mas", "eu quero me vulnerabilizar". Ela, toda palestrinha, toda sabida, toda sapiosexual, toda tdah, toda ah, andando e se equilibrando. Ela, um schnitzel, um stubb, um strudel, uma casinha bem longe desta rede. Ela, pensada, imaginada, amada e odiada no vácuo da minha mente. 

Mas - fundamentalmente e sempre - ela, numa tarde qualquer de pandemia, dançando sozinha no beco, tão alegre, tão solta, tão linda, tão toa...

Miro do Sakura

Quando eu estava meio de mau humor, nem pestanejava ao escolher onde jantar: no @restaurantesakurapoa , pra dar umas risadas com o Miro, comer bom sushi e voltar leve pra casa. Aliás, a estratégia também vale pra casais naquelas noites de conflito ou ranço matrimonial (#ficadica).

Por isso, fiquei feliz de ver este querido se recuperando de um ano de m... , em que passou acamado e sem trampar, com restau em obra eterna. Miro é gigante e, mais uma vez, cheguei macambúzio e saí sorrindo , hoje no @sakurakaiten , onde fomos só pra prosear.

Pra completar, tive a alegria de conhecer a Pietra (sempre soube que Miro era baita pai; a guria é querida, inteligente e educada). E de poder voltar a comer sushi, depois de 10 meses, ao lado do @joaorsaribeiro !

Esperando, então, a recuperação plena desta figura, pra ouvir sobre Campos dos Goytacazes, fumar sapo e conversas com bovinos.

#tmj

sábado, novembro 16, 2024

Meu amigo Otávio

Eu nao sei como eu vivi tanto tempo sem duplar com um vibrador. Quando meu parceiro sai da gaveta, já dá uma animação. Alivia a língua e os dedinhos, prenuncia a pequena morte. Meu best é o Otávio, um mini sugador. Fui eu mesmo que batizei. Meio sem querer, meio por surdez, mas ele parecia predestinado a se chamar assim. Foi nomeado quando minha parceira tirou de uma valise enorme quantidade de vibros (fingi costume: 'super normal', que mulher não tem sua maleta???'). Daí, ela me apresentou:

Ela: _Este é meu preferido, meu pequeno notável..._
Eu: _Quem? O Otávio????_

Pronto, batizado. Pelo seu porte, o pequeno notável não compete com homem ou piroca alguma. Pode ser manipulado discretamente, em qualquer posição. De quatro ou de costas o parceiro nem vê. Mas curto um franguinho assado, adoro acompanhá-lo em serviço: tão diligente, tão discreto, tão eficiente.

Será que isso me classifica como cuckhold??? Espero que não, porque sou bem conservadorzinho - até assusto com as cordas que tu postas. E quero minha mulher pra mim, só pra mim! E pro Otávio...

sábado, setembro 14, 2024

Na casa da girl

Na casa da girl. Transando. Penetrando. Eu:

‐ Quero morar aqui!

(função cerebral migra do lado direito para o esquerdo)

‐ Quero dizer, quero morar aqui, dentro de você, e não dentro da sua casa.

(esforço pra energia cerebral retornar ao lado direito)

sexta-feira, setembro 13, 2024

RIP Mauro Vieira

Era sempre uma tranquilidade quando tínhamos o Mauro Vieira como dupla de foto na reportagem. Não tinha ruim pra ele. Um cara que equilibrava força e leveza; alegria e seriedade; profissionalismo e amizade. Um colega agradável, que transmitia confiança pra toda a equipe. Acima de tudo, um olhar curioso, atento e sensível. 

Lá por agosto de 2008, estávamos há uns três dias na estrada, reporteando sobre a revolução do eucalipto nos campos do Rio Grande. Exaustos, assinamos o checkin às 19h no confortável Hotel São João Palace em Santiago do Boqueirão. Não baixamos mala, nem nada, reingressamos no auto e andamos mais 70kms em sentido contrário ao destino final, por asfalto ruim e estrada de chão. Trocamos os lençóis engomados da sofisticada hotelaria missioneira pelas rústicas camas da Fazenda do Perpétuo Socorro, na Cândida Vargas.

Porque, pro Mauro, e pra equipe que ao fim e ao passo ele comandava, jantar uma paleta de ovelha texel assada na brasa, mirar as estrelas sem a interferência das luzes da cidade, ver o amanhecer no campo e sentir o minuano no lombo valiam muito mais do que duas horas extras de estrada. 

A horinha que passamos na fazenda ainda em meio ao nascer bastou pra ele fazer estas fotos que ninguém pediu, ninguém mandou, ninguém pautou. Só porque era fotógrafo e trabalhava com o que amava (na mesma trip, ele fez o mesmo em um esquecido cemitério de Campanha em São Gabriel).

Regressando à Capital, ainda paramos no São João só para assinar o checkout do hotel como se de fato tivéssemos usado - afinal, ninguém queria ficar dando explicação pro ADM. O que importava e sempre importaria pro Mauro eram as histórias e as imagens.

RIP, @mvieirafoto

Mauro Vieira era fotógrafo, trabalhou no Jornal Zero Hora por anos, faleceu em 12 de setembro de 2024.

PS: poucos dias depois da reportagem, a iniciada revolução do eucalipto nos campos do RS foi sufocada pelos desdobramentos da crise internacional que quebrou as papeleiras, desprotegidas do baque da desvalorização do real. A linda matéria que fizemos virou pó na história, afinal, não previmos (como ningém, aliás), o colapso das empresas e projetos de celulose gaúchos.


segunda-feira, agosto 19, 2024

Em Parintins, faça como os parintinenses: vá de moto!

Cheguei no quarto, digo, no cativeiro e fui recepcionado com um abraço pela minha anfitriã (eu nunca a tinha visto, mas aparentemente ela teve uma Síndrome de Estocolmo ao contrário e se afeiçoou ao sequestrado).

Expliquei que ainda precisava passar no aeroporto, ao que ela sugeriu:

"Vai de moto!"
"Que moto?", perguntei...
"A minha moto. Tó a chave"
"Mas eu não tenho carteira de moto"
"Não tem problema, não, aqui não precisa"
"Tá, mas eu não tenho capacete, este teu não vai me entrar"
"Precisa, não, nesta época ninguém pede"
"Moça, olha só, eu não sei andar de moto"
"É fácil... Vá!"
"Moça, olha só, eu nunca, nunquinha, dirigi uma moto. Nem mobilete. Nada..."
"Experimente..."
"Mas tem de fazer marcha??? Se tiver, eu não vou..."
"Tem, é com o pé, pra cima e pra baixo, experimente!"
"Tá! Me dá esta moto então"

E saí todo atrapalhado, dando solavanco a cada reduzida na marcha e voando pra trás a cada vez que colocava segunda ou terceira. Não caí. Não morri. Estou aqui.

sexta-feira, julho 05, 2024

Um sonho

Sobre esta trip pra ver o Caprichoso. Possivelmente, é a primeira vez que "realizo um sonho". 

Todas as coisas, conquistas na minha vida, foram meio que acontecendo naturalmente. Eu não sonhava ter filhos - eu os amo mais do que tudo, queria ser pai, mas era algo que tinha convicção de que aconteceria. E assim foi, como se o curso natural da vida.

Eu não sonhava trabalhar aqui ou acolá - desejava, talvez. Eu não sonhava conhecer Paris ou Nova Iorque, porque sabia que a qualquer hora pisaria nestas terras, privilegiado que sou. Eu nunca tive um ídolo pra sonhar encontrar.

Um sonho tem de ter algo de inatingível, de ser desejado, mas não esperado. Um sonho, a gente tem de abraçar e dizer "eu vou lá fazer", não importa o perrengue; exige um querer, um esforço incomum e um propósito... 

Nesse sentido, ver o Caprichoso deve ter sido o primeiro sonho realizado da minha vida - e isso é incrível, porque, de verdade, eu achei que nunca aconteceria. 

E, agora, eu só quero é ir de novo! Parintins é como a garota mais bonita da sala de aula, a cunhã poranga por todos desejada, que te maltrata, te pisa, te humilha, mas pra ela tu quer sempre voltar.

Desculpa, Floripa, mas a verdadeira Ilha da Magia não é sulista; é nortista e adora dormir numa rede. Desculpa, Nova Iorque, mas a city that never sleeps fica no meio da Floresta. Desculpa, encarnado, desculpa colorado, mas ser gremista e caprichoso é um sentimento porreta, bem maior do que o planeta, efervescente calor. Só quem é sabe a extensão deste amor.

quarta-feira, junho 05, 2024

Herança

"Não sou de choro fácil, a não ser quando descubro qualquer coisa muito interessante sobre ácido desoxirribonucleico" 
Matilde Campilho



Vem de mim ou vem de ela?

Não importa. Depois que junta, existe eu-ela. Engrenagem da bicicleta, encaixa e anda, um e um e um e um. Encaixa, encaixa...

Não! 

Que não gruda, é feito corda, rédea. Guasca, enreda. Só assim é!

Não!

É como massa, massinha, que gruda mas não modela  Torce, enrola, enrolar, enrola... que vira fogo! Fogo não se quebra: é uno, só se apaga. Ou se acende.

Neu ou nela? 

quarta-feira, abril 17, 2024

Pessoa de Segurança

Seguindo alguns perfis de autistas, maioria nível de suporte 1 e com diagnóstico tardio, conheci o conceito de PESSOA DE SEGURANÇA. E achei tão lindo. É aquele amigo, familiar ou colega que conhece todas as tuas dificuldades e, quando consultado por ti, ou mesmo ao notar que estás enfrentando dificuldade em compreender alguma situação, interfere e te ajuda a traduzir o mundo. 

Actedito que esse conceito, sem invisibilizar a dificuldade de quem tem diagnóstico, não precisa se restringir aos atípicos. Sinto a @isabelmarchezan como minha pessoa de segurança. A gente pode andar afastado, mas sempre que estou passando um perrengue ou situação extraordinária na vida, ela brota tipo o Mestre dos Magos.

E me tira da inércia, me espinha com suas urtiguices, me chacoalha no samba, me traduz o mundo. Para o sem-freio aqui, isso significa até mesmo avaliar se uma atitude, manifestação ou texto estão adequados.

Este aqui vai ser publicado sem o selo Urtigão de adequação: não passou por ela. Mas as pessoas de segurança também servem para isso: nos dar segurança para que possamos ser quem somos.

Obrigado, Isa, por ser minha pessoa de segurança!


sexta-feira, março 15, 2024

Do neida

Do neida, toalhas desbordadas.
Do neida, lágrimas quentes.
Do neida, dor lancinante.
Do neida, no colo da filha.
Do neida, cama, pão, salame.
Do neida, torto na rua.
Do neida, cruzando a noite.
Do neida, pobre(s) criatura(s)
Do neida, xeque-mate com água.
Do neida, droga e salada.
Do neida, tecnobloco no pique.
Do neida, bafejo do samba.
Do neida, colchão e tapete.
Do neida, minha toca.
Do neida, eu e eu.
Do neida, do neida...



quinta-feira, março 14, 2024

É doido, né, Lari?

Do nada, apareço
Um dia anverso,
Outro do avesso.

quarta-feira, março 06, 2024

Fernet-Cola (editado)

Até ontem eu dizia que não estava pronto para qualquer coisa que não fosse suave e na rua, vendo a paisagem passar, talvez num barzinho destes de calçada.

Mas então a Isabel me levou a um boteco na Praça Garibaldi, arrisquei entrar pra um pipizinho, e a primeira bafejada de samba, ouriço e suor na fuça funcionou como um jato de Jimo Penetril Desengripante em uma sólida engrenagem Klingelnberg, que só estava meio enferrujada, mas era feita do mais resistente aço alemão, dotada de um mecanismo preciso para rodar no ritmo do samba, do Fernet-Cola e do Xeque-Mate.

Então, eu olho em volta e, do neida, beijo triplo, quádruplo, os caras, as minas, elus todes... E era como se eu tivesse dado 20 voltas ao mundo e chegado no mesmíssimo 15 de novembro de 2003, logo depois do primeiro beijo que definiu duas décadas de vida. Assim, descrevi, no post sobre essa conquista, o momento que a sucedeu, na buate, com as amigas:

_Beija, beija, tá calor, tá calor! Baba, baba, sem amor, sem amor! Lambe, lambe, sem pudor, sem pudor!_

Agora na Praça Garibaldi, era como se nada tivesse mudado, senão eu. Como se eu tivesse saído da festa na Plataforma 15 de Novembro, embarcado no metrô, vagado vinte anos pela cidade com ela, depois com nossos pequenos, e sido expelido na mesmíssima plataforma. E ali estavam todos os brincantes, ainda me esperando.

Quando desembarquei, quem me deu a mão foi bem a amiga que deu tchau e desejou tudo de bom e de melhor em 2003.

-Foi bom o rolê? Também dei uma voltinha, mas eles ainda estavam aqui, nos esperando...

Obrigado, amiga.

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(Para o post original, voltar a dezembro de 2003)

sábado, setembro 23, 2023

Atormentado

Eu devia ter medo de temporal. Muito. Quando tinha 3 ou 4 anos, fiquei um dia aos cuidados de minha avó - não era comum, mas eu estava de novo com amigdalite e faltei à aula. Naquela tarde, veio uma tormenta de primavera daquelas. A vó entrou em transe e começou a rezar freneticamente, terço na mão, absolutamente alheia ao neto. Me senti sozinho e esquecido. Traumatizei. 

Também tinha as tias que cobriam os espelhos no temporal. Pra quê?

Um dia entendi melhor o pavor da vó. A familia dela tem campo num lugar chamado Cândida Vargas. Perto de Itacurubi e Unistalda. Em um desses anos, não faz muito, saiu aqueles mapas oficiais das cidades mais atingidas por raios em 12 meses. As duas constavam nos Top 5 do Brasil. Nunca soube se era uma coincidência no ano ou condição geográfica e geológica permanente. Sei que lá de fato as tormentas assustam.

Herdei do meu pai o oposto do que traumatizei com a vó. Quando o dia virava noite, ele ia pra janela e ficava olhando admirado a chuva e os raios. Que linda a natureza! Que venha água! Agora tudo vai verdejar! É lindo, do topo de um edifício de concreto bem armado. Mas a casa lá de fora (a mesma que ninha avó morou) parece recheada de barro. O pararraio é um cabo torto que corre a meio palmo da parede externa. Eucaliptos do potreiro são queimados por raios. E todo ano se perde alguma rês. Última tormenta que presenciei, me enfiei debaixo das cobertas, mas a cama e a parede tremeram com o estrondo de um raio que deve ter caído ou no pararraio ou a menos de 50 metros da casa. Ninguém gritou nem falou nada na hora. Silêncio total. Só uns 30 segundos depois as pessoas começaram a se mexer e comentar? Tu viu este??? Tu viu??? Como se desse pra não ter "visto"...

Também, outra vez, choveu muito quando a peonada estava lidando no campo. Quem conhece o ritmo do Pampa sabe que o tempo passa diferente por lá. Gauchada não aperta o trote, o papo, o mate, a carne no fogo. Ninguém sai correndo pelas coxilhas como em filme de bangue-bangue. A vida no campo não é um faroeste. É mais ou menos como um filme japonês - devia ser Kurosawa - que vi com minha mãe quando adolescente e traumatizei (traumas, traumas, Freud me acode!)... A câmera parou numa rã coachando e ali ficou por uns cinco minutos. Assim é o ritmo do homem do campo. O ritmo da natureza. Mas um dia estavam de 'a cavalo', longe das casas, quando se armou a tormenta. Um raio caiu a menos de 100 metros da gente. Deu aquelale clarão, um cavalo rodou, e a peonada começou a galopar freneticamente pras casas. Meu coração saía pelas orelhas. Lembrava um pouco os veranista fugindo em desordenado bando da praia quando o céu escurecia. 

Na praia, aliás, a tormenta dá um misto de medo com excitação. Por um lado, a vontade de entrar no mar,  neutralizar os pingos grossos da chuva. Por outro, o medo racional dos raios. Recordo de um verão lá peloscanos 90, quando chegou a notícia de que um homem morrera de raio na praia grande de Torres. Isso foi minutos depois logo de eu ter corrido da areia da mesma praia e ido pra casa. A noticia veio no rádio de pilha da cozinheira da minha tia, porque o bairro inteiro ainda estava sem luz. Lembro da varanda em que estava quando me contaram e da sensação palpável de que o risco era real. 

Hoje, quando estou na cidade, tenho o fascínio do meu pai pela tormenta. Quando estou na praia ou no campo, um misto de fascínio com pavor. É nesta hora que gostaria de ter um recurso que a vó tinha, mas me falta: Fé.

sexta-feira, agosto 11, 2023

La Pastora

Tenho vontade de mandar meus pastores dar um rolê com passeador algum dia. Só pra ver eles no meio da matilha e dizer: 'olha: ali se vão meus pastores em alegre bando'.

Mas na verdade, nossa rotina tem sido assim: 9h da manhã levo eles na Sheeps Square. Eles sempre fazem número 1 e número 2, não raro Teo e Ive ao mesmo tempo. Assim que finalizam esta tarefa, eu pego as bolinhas de tênis e dou um pau de brincadeiras neles. Correm, correm, correm. Até semana passada, corriam e se matavam a unhas e dentes mesmo, brigando pela bolinha. Agora que descobri que se eu atirar duas bolinhas ao mesmo tempo não dá mais briga, minha vida e meus passeios deram um salto de qualidade incrível. 

A Sheeps Square se tornou o lugar ideal para eu levá-los. Conta com infraestrutura completa: grades para impedir que fujam, nove bolinhas de tênis à disposição dos tutores, um frisbee, saquinhos para recolher cocô, quatro bebedouros feitos de garrafas pet ressignificadas, taquareiras que protegem da chuva.

Para uma pessoa esquecida como eu, que nunca lembrava de levar brinquedo para o parque, isso representou um novo patamar de fruição do tempo com os caninos. E uma sensível melhora na minha relação com eles. 

Depois de correrem até se estrebucharem, eles deitam na grama e colocam a língua para fora. Eu me sento junto por uns 5 minutos e apenas os admiro. 

São apenas 20 minutos de correria por dia, que aparentemente saciam a necessidade dos pastores de gastar energia. Eles passam então o dia muito tranquilos em casa.
Lá por volta das 17h/18h que começam a se agitar e ter vontade de dar vazão às suas necessidades fisiológicas. É quando rola um conflito familiar, porque nosso filho fica se fazendo de surdo pra passar bem e evitar a responsabilidade de passear.

Ainda que dêem um quarto de volta ou volta inteira na quadra às 18h, lá pelas 22h, os prendemos na área externa da cobertura, para caso queiram fazer um último xixi ou cocô. Eles protestam, até encher nosso saco e a gente liberá-los pra ver série com a gente no sofá.

À noite, eles dormem muito tranquilo. Escolhem um cantinho no chão ou numa cama e não incomodam (só o gato incomoda). 

Sempre digo que los pastores da xetlândia não são como os border cóllens, que têm energia inesgotável. Vinte minutos de bolinha são suficientes para acalmá-los por 24h.

Espero que aproveitem este relato. Ninguém perguntou, mas eu respondi.

sábado, fevereiro 25, 2023

Qual a melhor coleira: Leevre ou Seresto


A Seresto da Pastora tinha vencido, e eu precisava substituir. Estava na praia, pedi para a minha pecuária favorita, mas eles só tinham Leevre. 

Perguntei aqui no grupo Shelties Brasil se servia, me disseram que sim. Não era o mesmo princípio ativo ("PA", falaram, e eu não entendi), mas tinham os mesmos propósitos e eficácia semelhante.

Seresto tem Imacloprida e Flumetrina. Leevre tem Deltametrina. Seresto é da Elanco. Leevre é da Ourofino. Seresto custa 220. Leevre custa 150. Seresto é contra pulgas e carrapatos. Leevre é contra pulgas, carrapatos e mosquitos-palha. Ali na praia tem muito mosquito e pouca palha, porém.

O único senão, me disse a Mondaini, é que Leevre tem um cheiro forte. Muito forte?, perguntei. Forte. Tanto assim? Forte. Muito muito? Forte. Mas melhoraria, um pouco, com o tempo, explicou.

Sou um cara fiel. Não quis trair a pecuária que me salvou muitas vezes no ano passado, quando levei a ninhada pra praia. Me leevrei do medo e dos preconceitos e comprei uma Leevre.

Quando abri a lata da coleira, foi como abrir uma lata de JIMO GÁS FUMEGANTE. O cheiro era tão forte, que dava tontura. Fiquei com medo de desmaiar, de ter choque anafilático. Minha glote, minha glote! Será que inchou? Não, era só o cheiro, tava tudo bem...

O odor era de menta com fumaça. Logo que a gente instala, já toma conta do corpo do cão. Ele passa a exalar o cheiro da coleira. A Rafa, minha esposa, diz que a Ive tá fedendo a Neocid. Neocid era um inseticida comum dos anos 80. 

A gente agora sente quando a pastora se aproxima a uma distância de três metros. Dá pra saber direitinho se ela está dormindo embaixo da cama. 

Ia melhorar com o tempo, disse a Mondaini. E de fato, fica mais suave - pra ser mais preciso, menos forte. Em determinado momento, eu estava quase gostando. Me acostumei e já voltei a afofar a peluda. Mas, ao passar dos dias, vão também surgindo novas notas aromáticas. Por exemplo: enxofre. Agora, ela se aproxima e alguém já pergunta: "tu peidou"?

Segundo a Rafa, é cheiro de Borregaard. Todo mundo que viveu os anos 80 em Porto Alegre sabe o que é "cheiro de borregar", um aroma de pum exalado pelas chaminés da papeleira então da Borregaard, do outro lado do Rio Guaíba, mas que, dependendo do vento, tomava conta de Porto Alegre inteira, submentendo a população a viver sob uma nuvem de peido. 

Agora, minha Ive é uma nuvenzinha de menta, fumaça e borregar vagando pela casa. Vou dar mais umas semanas, confiando na Carol, de que melhora com o tempo. Mas já não tenho muitas esperanças.

É quase certo que vou me leevrar da Leevre e colocar uma boa e inodora Seresto na minha pastora.

   

sexta-feira, dezembro 02, 2022

Sonho

Eu estava no Laje de Pedra durante o Festival de Cinema de Gramado. Era toda aquela muvuca de produtores na piscina térmica: quem não tava de roupa na piscina vestia sunga excêntrica. E uma mulher de camisa azul, só dois botões abertos, magrinha, alinhada, mas com um quê de polícia. Eu comentava que fui assaltado na saída do hotel, juntinho à corredeira do Rio - "na beira da spring", eu falava. Um cara apontou um lápis pra mim. Não levou nada, porque nada eu tinha e consegui fugir. Três prostitutas ao lado dele não fizeram nada. Nada! Nem o monte de véio playboy que via tudo por trás dos gradis do hotel. Eu estava concluindo este relato pros caras do hotel, quando algum deles contou que tinha uma investigadora ali. Na área da piscina só uma pessoa ostentava cara de investigadora. E então eu disse:
- É tu! Detetive Aline!
E ela respondeu:
- Não posso dizer - e deu uma piscadinha.

sábado, novembro 26, 2022

Ninhada de Pastor de Shetland

Ah a gente deu nome pra todos assim que nasceram.

A Rafaela viu o primeiro, checou se tinha piupiu ou periquita e lascou, do nada, aleatório total:
- Pâmela!
Aí foi ladeira abaixo, pepêzando tudo:
- Patrícia!
- Paulinha!
Daí, cê sabe, _eu conheci Paulinha numa noite de verão..._ E então eu disse:
- Armandinho!
Nesse momento do parto aconteceu algo estranho. Em vez de um cãozinho nasceu um porco da índia duas vezes maior que os outros bebês e botando banca. Era o alfa da ninhada. Ficou Alfa mesmo.
E por fim um machinho pequenucho, simpático. Ele tinha uma cara simpatica, que nem o garçom mais carismático de Portto Alegre, do Sakura.
- Este é o Miro!
E foi o único que a família honrou 🙏

Troquei a ordem pra ficar mais fácil concatenar, mas pensando agora ficamos com o único que nao ganhou nome. Nem no registro a gente sabia  e aí colocamos Vinicius, porque era do Tropical Shelties, e a Ive já era inspirada em MPB. Tadinho, depois duns 4 meses que pegou o nome Téo. Mas hoje a gente chama de dinossauro mesmo....