segunda-feira, janeiro 10, 2022

O Circo Por Trás da Lona

Um dos meu trabalhos nos primeiros anos da Cartola . Que saudade!!!

Por onde andam Pitoco e Verica?

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O CIRCO POR TRÁS DA LONA II

Por Sebastião Ribeiro

Às 20h05, ele deixa o trailer azul de apenas 10 metros quadrados onde mora com a esposa, os dois filhos e às vezes a sogra. Carrega nas mãos um saco de carvão, álcool, jornal, fósforo, um prato de plástico. Vestindo bermuda, camisa polo e chinelo, do pescoço para baixo é o argentino Juan Carlos Foppoli - ou apenas Juanca –, o pacato marido de Verica e pai de Juanes (um ano) e Juanita (quatro). O rosto, todo pintado, já é de Pitoco, o atabalhoado palhaço que apresentará quatro números no espetáculo das 21h do Circo Español, em turnê por Porto Alegre (RS).
Antes disso, porém, tem de assar o churrasquinho vendido na entrada do público e no intervalo. Enquanto o palhaço apanha para fazer o fogo, a esposa, Veridiana Lima, ou apenas Verica, chega com uma bandeja cheia de espetinhos de carne de gado, linguiça e frango. O tempo está úmido, e o carvão não quer saber de incendiar. Com o prato, o palhaço abana sem parar. Com as mãos, tenta dar uma nova configuração geométrica ao combustível, na esperança de acelerar o processo. Faz apenas três dias que assumiu o churrasquinho. Falta-lhe prática.
- Mira que porqueria! – queixa-se a Verica, em espanhol, apontando para o carvão.
- Tu vais queimar teus dedos!
Aos poucos, no entanto, as pedras abandonam a coloração preta e assumem a vermelha. O palhaço está aliviado. Com o prato que já foi abanador e receberá a farinha, faz malabarismos. A seguir, caminha até o camarim de lona improvisado junto ao trailer. Volta 100% Pitoco, vestindo um macacão xadrez e uma boina azul. Verica também está preparada para a breve aparição como bailarina, a maquiagem desenhando uma máscara nos olhos.
Os dois formam um casal peculiar. Aos 21 anos, ela mede 1,72m e tem pouco mais de 50 quilos. Aos 29, ele tem 1,62m e pesa ao redor de 100 quilos. Começaram a namorar quando ela tinha 15. Em um circo, é claro. Pitoco vive no picadeiro desde que nasceu, em Mendoza, na Argentina. Verica, brasileira, fora morar com a irmã, bailarina, colega de espetáculo do palhaço. A temporada era numa cidade gaúcha na fronteira com a Argentina ou Uruguai, nem eles lembram qual – Alegrete, Uruguaiana, Santana do Livramento. O fato é que Juanca convidou Verica para sair, os dois foram a uma boate e um ano depois juntaram os trapos, passaram a dividir o mesmo e itinerante lar.
Enquanto o palhaço segue no comando dos espetos (agora a batalha é para não torrar a carne), a tenda onde o público é recepcionado ganha cores e movimento. No trailer do bar, tem pirulito, bala, pipoca, cachorro-quente, refrigerante, além de um Homem Aranha inflável, tiaras adornadas com borboletas e outros brinquedos. Atrás da máquina de crepe e do algodão-doce, a nora do dono do circo maquia uma bailarina. As outras enchem caixas com refrigerante e pipoca para logo mais vender na plateia, junto com o churrasquinho, a maçã caramelada, as pulseiras fosforescentes. Tudo é feito para as crianças. Menos a música que abre o sistema de som. Um hit do sertanejo moderno: "Mas pega fogo cabaré/ Hoje eu não arredo o pé/ Pode vir que eu tou no ponto/ Só filé... só filé".
Na porta, uma fila de crianças e pais dobra a esquina. Uma atrás da outra, 120 pessoas parecem muito. Dispersas entre as mil cadeiras acomodadas debaixo da lona, pouco. Quando a entrada é liberada, às 20h47min, Pitoco está a postos junto a uma mesa de bar. Atrás dele, o cartaz anuncia: "PINTE A CARA DE PALHACINHO GRÁTIS na compra do nariz por R$ 1,99". Uma mãe protesta: "é propaganda enganosa!". Muitas acham caro. Uma quer saber se a tinta sai com água. Algumas nem cogitam em dizer não ao apelo dos filhos. Outra opta por apelar.
- Não quer pintar a cara de palhaço, meu filho?
O guri, aparentando cinco anos, apenas observa Pitoco. Com desconfiança.
- Ah, vai, meu filho... Olha que bonitinhas as outras crianças. Pinta!
Assustado, o garoto abana a cabeça. Não. Ele prefere pipoca e refri.
Caras pintadas, narizinhos de palhaço vendidos, Pitoco se volta para o churrasquinho. Afinal, o dinheiro da venda vai todo para ele, fazendo a renda mensal ficar um pouco acima de R$ 2 mil. Na churrasqueira, entretanto, os problemas continuam. Agora, um fogaréu lambe a carne, os espetos estão em chamas. Dois deles já caíram sobre o carvão. Definitivamente, falta experiência ao palhaço. Para amainar o fogo, Pitoco taca o molho de alho sobre a labareda. Em vez de apagar, o composto alimenta a combustão. Parece palhaçada. Mas é trapalhada mesmo. Nada que não se resolva afastando a carne do carvão.
São quase 21h30min e, no picadeiro, o espetáculo começa. O palhaço deixa a função do churrasco, troca roupa no trailer e se prepara para o primeiro número. Sob os holofotes, vestindo boina azul, colete vermelho, calças largas e sapatos gigantes, Pitoco movimenta-se espalhafatosamente e apita sem parar. Chama quatro voluntários. Senta-os em banquinhos, deita a cabeça de um no colo de outro formando um quadrado, começa a retirar os banquinhos até deixar a formação sem apoio, mas ainda sustentável. O gran finale é atirar um lenço sobre os quatro, fazendo tudo desmoronar. Os voluntários caem de bunda no chão. Gargalhadas. Aplausos. Sim, tem um truque, mas nós não vamos tirar a graça, não é?
O número solo, o artista teve de tirar da cartola há cerca de três meses, quando perdeu sua dupla de palhaçadas: Petaco, seu pai. Anão, natural de Mendoza, aos nove anos ele foi vender frutas no circo e fez amizade com os artistas. O pessoal do espetáculo convidou o pequeno para viajar uma semana com a trupe. A viagem durou a vida toda. Até 2009, quando aos 57 anos um derrame foi fatal. Pitoco perdeu o pai, o amigo, a dupla, aquele que desde criança o pintava de palhaço e aos seis anos o colocou no picadeiro. "Meu pai foi enterrado às onze da manhã. Às oito e meia da noite do mesmo dia eu entrei no picadeiro sozinho. Quando as cortinas se abriram, esqueci de tudo. Fiz tudo certinho, como tinha de fazer. Aprendi com ele mesmo que tem de ser assim", lembra. Logo após, conta que a mãe, antes bailarina de circo, hoje mora na Argentina, perto das quatro filhas, das quais uma também é artista.
Durante a apresentação, Pitoco não tem muito tempo para pensar mesmo. Ele sai do primeiro número, dá uma espiada no churrasquinho, troca de roupa no trailer, volta ao picadeiro como um pintor gozador, sai de cena, pega a mala com o material de malabarista, corre esbaforido por trás da cortina até o lado do picadeiro, dá um pito num funcionário que pita em pleno espetáculo, segura com outros três homens a corda que mantém a trapezista Veronica no ar, entra no picadeiro quando ela sai, emenda um número de malabarismo com bolas de jogar bocha, uma delas bate na sua cabeça, ele sai com um galo (o hematoma, não o animal) de plástico no coco, arranca risadas da plateia, corre até a entrada e assume a churrasqueira para o ponto alto das vendas: o intervalo.
O movimento é pequeno. Mesmo assim, uns 30 espetinhos encontram saída na noite. Enquanto compram, as crianças aproveitam para conversar com o palhaço vendedor. Dois garotos, vestindo camisetas com motivos de surf e boné, naquela fase meio criança, meio adolescente, perguntam sobre o número no qual o artista Fabricio Gadea move-se como um boneco.
- Aquele manequim era uma pessoa ou um boneco? - pergunta um dos guris.
- Uma pessoa que faz trabalho de boneco – responde, sorridente, Pitoco (ou seria Juan Carlos?), com a mesma fala tranquila de sempre.
- Depois, tu nos chama para o palco?
- Onde vocês estão sentados?
- Ali em cima para a direita.
- Então tá.
Minutos depois, os dois estariam no picadeiro,  posando para fotos de um palhaço que não consegue se decidir pelo melhor ângulo ou o melhor enquadramento. É o último número de Pitoco na noite.
Na saída, atrás das cortinas, sobra agora tempo para falar com o ginasta. O colega conta que uma das bailarinas está se formando em educação física e convida todos para uma festa depois do espetáculo. Antes disso, porém, a trupe inteira tem de voltar ao picadeiro para receber os aplausos.
Dever cumprido, apresentação encerrada, Pitoco ruma para a frente do trailer. Logo atrás, vem Verica, pernas de fora, barriga de fora, roupa de bailarina, crivada de lantejoulas, correndo feito uma criança.
- Juanca! Vamos numa festa?
- Pois é... Quanto é?
- R$ 6 com a pulseirinha que ela vai dar.
- E como vamos voltar?
- Tem ônibus às 4h.
- E tua mãe fica com as crianças?
- A-han.
Meia hora depois, o casal sairia de carona para a primeira noitada em quatro anos – desde o nascimento de Juanita. Quando me apresentei ao casal, no fim da tarde, a menina postou-se na porta, curiosa. Sem que eu perguntasse, foi logo dizendo.
- Eu também vou trabalhar no circo!!!
- É mesmo? Com o quê? - quis saber.
- Bambolê. Eu já faço, sabia?


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Sobre:
Pitoco é um dos personagens do ensaio sobre os bastidores do Circo Español, do fotógrafo Daniel Marenco, que faturou o 7º Concurso Cultural Leica Fotografe Melhor (circa 2012). O texto acima e o vídeo foram ao ar no portal Via Política.

https://youtu.be/29KYm0NRYt0

terça-feira, novembro 09, 2021

A Magia de Shetland

A Magia de Shetland

Quando os mercadores e pescadores começaram a levar os pequenos pastores das Ilhas Shetland à Grande Ilha, em meados do século 19, eles não sabiam que tormentas e venturas os esperavam. Acredite: atravessar mares, obter alimento para a família e até enfrentar grandes desafios como uma pandemia já foram bem mais difíceis no passado.

Mas pode ter certeza: à primeira calmaria no barco, ao primeiro olhar de um pequeno pastor a um marinheiro cansado, alguma coisa mudava. Havia naqueles cães algo além da habilidade para pastoreio e alerta! Há dezenas de milhares de anos, canídeos evoluíram de lobos selvagens para companheiros inseparáveis dos homens. Mas o que algumas centenas ou milhares de anos de convívio entre os pastores e os humanos nas Ilhas de Shetland fizeram é um pouco mais do que isso. É magia.

Pois não há palavras que expliquem o que sentimos ao fitar estes olhinhos amendoados! Que magia é essa que constrói amizades virtuais tão reais? Que faz tilelês e cheios de paranauês conviverem com tanta harmonia em um grupo de Zap? Que, em pleno 2022, forja um ambiente em que o bom senso é regra, e não exceção?

Nós, do Shelties Brasil, sabemos: esta magia tem pelos de Joico, bundinhas rebolantes, olhar de Richard Gere, fuço de raposa (ou urso...) e uma capacidade infinita de amar. 

Como os navegantes do século 19, nós não sabemos o que o amanhã nos traz, o que será de 2022. Mas temos certeza de que, com nossos pequenos pastores e os amigos que eles nos deram, tudo vai ser mais fácil de enfrentar.

RIP MalteCão

Todos os cães são especiais. Você dá um petisco, atira uma bolinha e basta. Em troca, ele leva você pra passear, consola quando tá triste, faz festa quando tá alegre, viaja junto, apresenta novos amigos e aumigos, arranca milhares de sorrisos só com um olhar, é absolutamente fiel!


Por que então o Malte parecia mais que especial? Por que ele era o Rei da Pracinha, o Imperdador da Saliby, o patrono da Red Bull Sheltie Arena e o dono da Porra Toda (incluindo o coração da Sossó, claro...)? Por que, aos 10 anos, meu filho tinha vergonha de pedir uma Coca-Cola no bar, mas se sentia à vontade para bater papos com "o Malte" no Instagram? Por que tem taaaanta gente triste agora que ele virou estrelinha?


É que o Malte era mais que um cachorro. O Malte era uma história, uma grande e linda história que ele escreveu com a Helô. E que não existiria sem o latido do Malte, nem sem a doçura Helô. Ela inventava que o Malte era medonho e latia sem dó. O Malte olhava você na pracinha com uma carinha meiga que só. Ela se escondia de cada foto. Ele sequestrava o foco. Era como se em mil viagens, aventuras ou voltas na pracinha, o Malte sorrisse o sorriso dele, da Helô e do Mateus, um sorriso múltiplo escancarado no meio de uma bola de pêlos.


O Malte se foi, mas história dele fica. E melhor: ainda temos conosco uma japa que certamente vai inventar muitas outras histórias lindas pra nos contar!


Você é especial, Helô! Fica bem! (Sebastião Ribeiro)

domingo, abril 11, 2021

Deniminação Oficial Tropical Sheltie

Lembrando algumas denominações TS e suas cores:

Pastor de Shetland = Tropical Sheltie, TS, Pastor dos Trópicos, Mini Cóllen Brasileiro ou MCB

Sable = Saibro, Zibelina

Marta Mahogany = Zibelina Mogno

Blue Merle = Mármore Canela

Bi-Blue = Mármore Puro

Bi-black = P&B ou Capa Preta Puro

Tricolor = Tricolor ou Capa Preta Canela

CHW = Alvilombado

sexta-feira, maio 08, 2020

Tubarão ou pandemia

Vocês precisam assistir a um filme que é uma parábola incrível do momento de pandemia que estamos vivendo. 

Acho até que foi feito inspirado na Covid19.

Talvez muitos não conheçam. Mas tem no Netflix. 

Chama-se Tubarão. É dirigido por Steven Spielberg.

Em um balneário de veraneio, no início da temporada, aparece um tubarão assassino. A primeira vítima morre. O chefe de polícia manda interditar as praias. Mas o prefeito logo o desautoriza: causar pânico não ajudaria! Foi uma fatalidade.

O prefeito manda abafar a história. Espalha uma notícia falsa de que a vítima morrera destroçada por um motor de barco.

Então, uma criança morre comida pelo tubarão. Todas as autoridades e lideranças da cidade correm para uma assembleia. Um político faz piada com o caso. Todos riem.

Reunidos na assembleia, empresários pressionam o prefeito para não fechar as praias. Os negócios não suportariam um verão sem veranistas. Logo, dependeriam de ajuda do governo.

Apesar dos alertas de perigo, a turba ignara e irascível sai para caçar o tal tubarão. Vão de manada, vários barcos, e voltam com um bichão de dois metros morto. A massa vai ao delírio. Vencemos!

O chefe de polícia continua preocupado. Ele chama um cientista, especialista em tubarões, para explicar o que está acontecendo. O cientista analisa as evidências e diz que o tubarão capturado não é o assassino. É ignorado. Ninguém acredita nele.

No outro dia, a praia está lotada. Mas todo mundo tem medo de entrar no mar. Então, o prefeito começa a botar pilha para seus aliados se banharem. Não havia perigo. Um entra, outro entra... de repente, todos os veranistas estão no mar.

E aí o tubarão aparece. E mata mais um. E depois outro. E outro. E outro. Mata até um cachorro.

Eu não vou contar o resto pra não dar spoiler. Assiste no Netflix. É um filme bem atual. De 1975.

quinta-feira, maio 07, 2020

Pandemia: podia ser pior!

Quer saber o quê? Foi quase sorte que a primeira pandemia de nossas vidas tenha sido esta Covid-19. É horrível, é trágico, mas podia ser bem pior.

O grau de contágio da Covid-19 é menos da metade do que o grau de contágio da varíola (erradicada). E 1/4 do sarampo, por exemplo.

Se levarmos em conta os casos assintomáticos, o novo coronavírus mata menos de 1% dos infectados. A varíola se espalhava mais rapidamente e matava um a cada três! Sim, cerca de 1/3.

Para vocês entenderem: para se espalhar, o coronavírus precisa que, de preferência, alguém espirre ou cuspa falando, que haja outra pessoa perto e que de preferência isso seja em lugar fechado, ou que outra pessoa toque numa maçaneta que foi tocada por um cuspidor...

O vírus da varíola, por exemplo, pode infectar a dezenas de metros de distância: ele sobrevive em partículas tão pequenas que viajam pelo ar como fumaça. Imagine que seu vizinho de baixo fume na janela e você inale a fumaça. Se ele tivesse varíola e atchim, você poderia pegar.

Você pode dizer: ah, mas pra varíola tinha vacina! Dá pra fazer um círculo e controlar...

Aliás, você sabia que a palavra vacina, vem de vaccinia, que vem da vaca🐄? Sim! Em 1796, o inglês Edward Jenner notou que as ordenhadeiras não adoeciam de varíola. Ao pegar em tetas feridas das vacas, elas desenvolviam pústulas na mão, mas não adoeciam gravemente.

Ele viu que quem pegava a "varíola bovina" (causada por um vírus da mesma família) não desenvolvia a doença humana. Injetou o pus de uma ordenhadeira em uma criança, que também desenvolveu algum sintoma leve e logo ficou curada. Voilá: a vaca deu origem à vacina.

Mas nada impede, por exemplo, que se crie uma varíola resistente à vacina. Isso é possível. Nada impede que outro vírus mais mortal e mais contagiante do que a varíola surja de alguma mutação natural e ameace a espécie humana.

Com exceção de meia dúzia de cientistas, os tiozinhos paranóicos, a gente não teve desprendimento pra imaginar e levar a sério e se preparar para um cenário possível - e até provável - como a atual pandemia.

Talvez seja hora de imaginarmos cenários bem mais ameaçadores. E, ainda que lamentando tantas vidas perdidas, agradecer que o alerta veio de maneira mais branda do que poderia..

compile @threader_app


You can follow @tiaoribeiro.

--
Sebastião Ribeiro
Diretor

Cartola - Agência de Conteúdo
(51) 9994-0519

segunda-feira, abril 20, 2020

Os carinhas que previram a pqndemia

Ele estava em um evento no Insituto Nacional de Saúde, onde tinha uns carinhas que pesquisavam saúde pública, projetavam cenários possíveis. Os poucos caras que trabalham com saúde pública global prevêm há muito tempo uma pandemia.
Neste exato momento, tem gente nas universidades, nas Forças Armadas, nos departamentos de inteligência, em laboratórios - carinhas alertando sobre os riscos de bioterrorismo, acidentes biológicos, acidentes e armas nucleares, fúria da natureza decorrente do ambiente degradado...
Esses dias eu falei aqui do meu tio, o Bebê, que era médico da OMS, trabalhou a vida toda com epidemias, mas me oferecia escassas respostas sobre o coronavirus. Uma das poucas certezas que ele tinha era: "estas coisas vão ser cada vez mais frequentes, isso já se sabia".
Eu falei também do livro Demonio no Freezer, que conta um pouco do trabalho dos caras que estudam riscos epidemiológicos e riscos de ataques terroristas com armas biológicas.
Este vírus da varíola, por exemplo. Ele não existe mais na natureza. O homem o eliminou. Mas guarda amostras em pelo menos dois laboratórios: um nos EUA e um na Rússia. E os carinhas há anos discutem se destróem estas amostras ou as mantêm para pesquisas e precaução.
Em 1991 a @opsoms decidiu por eliminar 99,75% de um estoque de 200 milhões de vacinas de varíola, porque a armazenagem consumia U$ 25k por ano (refabricar as vacinas custaria U$ 500 milhões).
Eles não são muitos. Algumas centenas, milhares de pesquisadores que se reúnem talvez uma vez por ano em um congresso global para alertar: "cuidado: a manipulaçãp genética de vírus é muito simples e poderia ser feita por terroristas".
Em cada decisão desta, sentam umas poucas dezenas de picas-das-galáxias da virologia, epidemiologia, saúde e discutem o certo a ser feito, debatem os riscos, etc. E fazem alertas apaixonados sobre riscos que o mundo inteiro preferia ignorar.
Agora mesmo, deve ter um destes picas, pode ser uma geniazinha phd das forças armadas americanas ou um tiozinho que estuda o ebola, dizendo: "cuidado - e se o degelo no ártico expôr antigos corpos humanos reativando vírus mortais dormentes???".
Eles sempre estiveram aí: apresentando papers sobre novos protocolos de segurança, tentando um espaço na mídia, uma agenda com o Presidente ou com o Ministro, uma verba pra que o programa tal não seja descontinuado.
Vez que outra conseguiam alguma atenção. Como nesta visita do @BarackObama ao NHI. De alguma forma aquele líder percebeu que estes carinhas não eram lunáticos, paranóicos, mas sim cientistas - e que o trabalho deles importava.
Eu mesmo, até 100 dias atrás, se visse uma entrevista de um tiozinho alertando para o risco de uma epidemia global, faria 🙄🙄 e trocaria de canal
Mas isso é raro. Num país como o Brasil, em que não damos conta nem das urgências do momento, quem vai se preocupar em projetar e se preparar para um cenário de emergência futura?
Eles eram invisíveis, mas provavelmente estavam em seus congressos falando pra si, dizendo que o mundo precisava reformular sua cadeia de suprimento de EPIs, que o número de leitos de UTI tinha de ser multiplicado, que a qualquer momento um vírus podia aterrorizar o mundo...
E se a gente tivesse ouvido eles, talvez algumas milhares de vidas fossem salvas.
Por isso, vamos para de dizer "ninguém sabia", "não tinha como prever", "é uma fatalidade". Os cientistas sabiam, tentaram nos avisar, e a gente e nossos governantes preferiu ignorar.
Nenhum vírus vai avisar quando irromper. Nenhum terrorista vai avisar antes de tacar aviões num prédio. São Pedro não liga pra avisar do terremoto. Mas a gente tem como prever o risco e estar mais preparado para cada desastre, pandemia, tragédia.
Por fim: estamos dando atenção pros carinhas que fazem previsões sobre consequências do aquecimento global??? Ou estamos fazendo ouvidos moucos e rolling eyes, afinal, tem boleto vencendo amanhã? Então: ESCUTEM 0S CARINHAS!

sexta-feira, abril 17, 2020

Sonho

Hoje eu sonhei com um monte de coisa estranha e amizades antigas. Fui almoçar na Panvel Farmácias e tinha uma galera lá. Um buffetzinho caseiro, ali na esquina da Quintino com a Marquês do Pombal. Feijão, arroz e abacate. Tudo terminou com eu brigando com o  Luis Canabarro Cunha, porque ele não quis me dar uma carona até aqui em casa, bem pertinho. E chovia muito. Fiquei puto. O irritante é que fui dar um soco nele - e vocês sabem como é soco de sonho, né? A gente bate, bate e não pega, dá sempre no ar. Tive que subir a lomba a pé, debaixo de chuva. Daí, já era noite e eu estava no Uruguai. E uns carinhas de Belo Horizonte queriam me assaltar. E eu dizia: ah, mas aqui não é assim, aqui não tem assalto. E eles insistiram. Daí eu comecei a gritar: "pega ladrón, brasileños ladrones!!!", e eles fugiram. Antes de chegar em casa ainda passei na residência de vizinhos. Ali, tive de fechar a edição de um jornal. Era pra ser uma matéria foda: "saiba quem financiou a vinda dos Rolling Stones pro Uruguai". Era dinheiro de crime, coisa grande. Mas a gente não conseguiu apurar e a manchete foi sobre como foi difícil achar ingresso. Fechada a edição, corri pra nossa casinha, onde a Rafa e as crias arrumavam o jardim. Entrem, entrem, ligeiro, tem 3 meninas me perseguindo!, disse. Entramos. Olhei pela janela e elas estava ali, examinado se era minha casa, prontas pra invadir. A tranca não fechava direito. A janela não fechava direito. Rafa, Rafa, me ajuda!!! A Rafa não vinha. Daí acordei.

terça-feira, fevereiro 25, 2020

Se meu cachorro falasse

Diálogo com @⁨Joao Ribeiro⁩.
- Nossa, pai, ia ser muito feliz se a Ive falasse.
- Ahn...
- Ela ia se muito mais obediente!
- Rapaz, tu fala um monte e é completamente desobediente!

quarta-feira, fevereiro 05, 2020

Cores de Sheltie

- Rafa, quais cores de chélti tu gosta? Na ordem...
- A que menos gosto é aquela preto e branco.
- Bi-black?
- Isso.
- Por quê?
- Ah, sem graça. Ainda mais quando fica só o carão pretão.
- Nossa, acho lindo... Lobo... E depois?
- Toda manchada, meio cinza... Não gosto.
- Por quê?
- Ah, parece que se enfiou na clorofina. 
- Nem do Pijama?
- É, o Pijama até é bonito. Mas não gosto.
- E o tricolor?
- É, mais ou menos... 
- E qual a que tu mais gosta?
- A da Ive.
- Marta?
- Isso!
- Por quê?
- Porque é igual à Léssi. Muito linda!!!

segunda-feira, julho 22, 2019

O PIJAMA

O dia que botei minha cachorra na do Pijama

- Pronto?
- Alô, é do Drummonds Hills?
- Sim, senhora.
- Do canil do Pijama?
- Esse mesmo. É um dos nossos melhores exemplares!
- É o seguinte. Eu tenho uma cadelinha pastor de shedlan também. Tipo mini cólen...
- Shetland! Pastor de Shetland.
- Isso, é que é difícil falar, ainda não me acostumei, mas estou amando a raça.
- Como posso lhe ajudar?
- É que o seguinte. A minha cachorra, a Ive Brussel, ela tem conta no Instagram. E ela fica olhando a internet. E quando aparece foto do Pijama, ela enlouquece!!!
- Hahaha. Não acredito! Entendi. E como podemos lhe ajudar?
- A gente queria cruzar com o Pijama.
- Mas, senhora, não funcio...
- Quando você pode deixar o Pijama aqui? Ouvi que o macho que vai na casa da fêmea, certo?
- Depende. Mas, minha senhora, não funciona assim. 
- Eu pego só uma cria e dou as outras pra você! É mais pra ela cruzar mesmo.
- Não é questão... 
- Eu pago!!
- A sua fêmea tem pedigree?
- Tem. 
- Quem são os pais?
- Sou filha da Dona Alice com o seu Ivo.
- Não. Os pais da sua cachorra. Tem no pedigree, escrito.
- Um minuto... 
- A senhora não quer me enviar por email e falamos posteriormente?
- Capaz... Já está na mão. É Zibelinen, a mãe. 
- Zibeline! É a cor. Como marta.
- Não é a Marta, não. É Zibeline mesmo, a mãe. Essa mesmo.
- Não, zibeline é como sable.
- Sim! Sim! Como a senhora acertou. O pai é o Sable! Ele é bom? Eu sabia que ela era boa! Dá pra cruzar, então? Quando sangrar eu aviso, pra você trazer o Pijama.
- Senhora. Zibeline, marta, sable, isso é cor de pelagem. O nome do pai e da mãe está em cima...
- Ah, sim, mas nomes dos pais eu sei. Nem precisa ver. Ela é filha da Joy com o Negão.
- Preciso os nomes do Pedigree. Estão acima da cor da pelagem. É só ler ali.
- Ah, sim. O pai é... Deixa ver... Mina da Mata Black Diamond. E a mãe Estrada da Mata Gates of Va... Ah, não sei dizer isto aqui!
- Conheço os canis. São bons, mas não podemos cruzar. Ok, senhora?
- Eu pago! R$ 5 mil?
- Não é questão. Senhora, o Pijama é um dos nossos melhores cães. Todos os cruzamentos dele são muito bem pensados. Estudados. Ele deve cruzar com as melhores fêmeas. Se nascerem filhos dele e forem animais fora do padrão, desvaloriza nosso cão... E a sua cachorrinha, por exemplo...
- Vai dizer que tem defeito???
- Não é questão de defeito. Mas, por exemplo, eu acabei de ver no Instagram. Ela tem o rabo torto, e isso tira ponto.
- Ponto?
- O Pijama vai a exposições. Se um filho dele chegar com rabo torto numa exposição, vão achar que ele não é bom reprodutor.
- Hmmm. Entendi. E se a gente registrar na Cinobras? Ouvi falar que daí meio que não vale, né?
- Hahhaa. Não é bem assim. Mas não. Podemos até ver outro macho para reproduzir, já que a senhora parece estar estudando e interessada na raça mesmo.
- Nem pensar. Ela quer o Pijama! Já sei, tive uma ideia: a gente nem registra, ninguém fica sabendo. Eles cruzam, eu fico com os filhotes, a senhora finge que nem viu. Ou que foi sem querer. Que a cachorrinha apareceu aí, entrou no canil, o Pijama aproveitou e... Enfim, e cruzou.
- Senhora, não. Tampouco temos interesse em aumentarmos a população de pastores de shetland não registrada. Isso foge do controle. Daqui a pouco vai ter shelties no Meyer, na Tijuca, em todo canto, e nossas crias vão ser cada vez menos valorizadas. Sabe como é: aumenta a oferta... Não. Definitivamente, não.
- Nem se eu pagar? R$ 5 mil e ainda deixo a ração pros dias que ela ficar aí. 
- E a gente nem falou dos exames todos que exigimos de cada matriz....
- A Ive é super saudável. Nunca teve lombriga, girardia lamblis.
- Giardia lamblia!!!
- Isso, nunca teve, nem berne.
- Não é isso que quis dizer. Senhora, não dá. Não podemos realizar este cruzamento. Não é não, OK?
- Ah, é assim? Vocês são muito metidos a besta! E quer saber? Ouvi falar que vem aí o Tropical Shelten, e em uns 10 anos estes cachorros peludões tipo o Pijama nem vão valer nada! Vão ser desprezados!!!
- Tropical o quê??? Que é isso??? A senhora saiu da linha!
- Quer saber! Vou cruzar com o Brownie que faz agiliten! Garanto que o Pijama não pula nem cabo de vassoura!!!
- Agility!!!
- Isso. Agility. Tchau!
- Obrigado pela preferência, senhora. Boa tarde!


quinta-feira, julho 18, 2019

Tropical Sheltie

- Oi! É um lassie bebê?
- Isto! 
- Nossa, sempre quis ter. Mas não acho na OLX.
- Procure por Tropical Sheltie, Mini Cóllen Brasileiro ou MCB.
- Boa... Vou tentar...Linda cor... Como chama?
- Ah, obrigado. A Ive é Zibeline Mogno.
- Lindo... Minha amiga tem um pastor de cheddar. É igual, não?
- Shetland. Pastor de Shetland que diz. Mas são raças diferentes. O TS é como a evolução do Shetland. E foi a primeira raça do mundo com book de registro na Focinhobras.
- Que legal! E também tem daquela cor merlen?
- Merle não é bem cor... Mas no TS a gente tem, sim, azulado. Chamamos de mármore. Tem o TS mármore puro e o mármore canela.
- Isso. Mármore Canela! Muito lindo, já vi no Instagram. Será que tem na OLX?
- Deve ter, deve ter, mas recomendo ir pra Jundiaí num sábado. Tem muitos canis lá. Vai pela Bandeirantes, já começa a ver os outdoors dos canis. Para num Frango Assado e já te indicam um criador.
- Boa! Obrigado.
- De nada. Saudações tropicais.

segunda-feira, junho 10, 2019

Breve Inventário Mnêmico dos meus Colegas de Cultural

Devo ter entrado lá com uns 10 anos. E só saí com uns 17. Mais ou menos umas 450 aulas, em conta de bar... O diálogo da primeira, nunca esqueci. 
- Whats your name?
- My name is Julia. Julia Burns.
- Hello, Julia, I'm ___________. Nice to meet you.
- Nice to meet you too.
Foi minha dinda que me levou à primeira aula. Pra me ensinar a andar de lotação. Depois, ia sozinho, me achando homenzinho. Outros tempos... (quando eu tinha seis anos de idade, um psiquiatra xingou minha mãe porque não me deixava dar a volta na quadra desacompanhado).
De tantos anos de Cultural - na Riachuelo e em Petrópolis - guardo um diploma perdido numa gaveta, um inglês de me virar por aí e memórias rotas. Devo ter tido uns 200 colegas. E consigo recordar de menos de 10 nomes, além de informações e imagens perdidas na mente, sem nenhuma garantia de correspondência com a realidade. 
É nestas que me apego para iniciar este breve Inventário Mnêmico de Meus Colegas de Cultural, os quais 'lembro' com muito carinho.

Abrão
Era chinês. Quer dizer, taiwanês. Quer dizer, não sei. Com certeza, asiático. Mas se chamava Abrão. E tinha um irmão. Estudava no Rosário. Sempre que pergunto pra um rosariense se o conheceu, respondem que não faz sentido o cara ser taiwanês e se chamar Abrão.

Ananias
Não era esse o nome, mas assim o chamávamos. Referência a um personagem dos trapalhões, anãozinho. Ananias era baixinho. E inteligente - campeão de xadrez do colégio Rosário. Dedicava-se mais que qualquer colega ao inglês. Já nasceu com o sonho de se tornar diplomata. Espero que tenha conseguido.

"SRG"
Deste não lembro o nome. Talvez fosse Rafael. Vamos chamá-lo de Super Raça Gremista - porque era apaixonado integrante da organizada. Vivia fardado com a camiseta da torcida. Tinha cabelos longos e loiros. Última vez que o vi foi há quase 20 anos, no Rocky Point de Atlântida. Grande papo.

"Irmãos Wright"
Aos 14 anos, já eram aviadores. Ou queriam ser. Viviam no circuito do Aeroclube de Porto Alegre. Eram bonitos. Educados. E irmãos. Pensando bem, não sei se eram um ou dois. Se efetivamente eram dois, o mais velho era mais camarada. Espero que tenha(m) se tornado piloto(s).

Aretusa
Desta lembro mais do nome do que da pessoa. Mas era loira. Bem loira. Oxigenada, talvez. Tinha um corpanzil. Deve ter botado peito antes das outras meninas. Eu e um colega gostávamos de se referir a ela como "Aertuuuuudo a ver". Era sonoro.

Juliana Ribeiro
Tida como metida e antipática em alguns círculos torrenses, era um mimo em sala de aula. Doce de pessoa e risonha. Fez comigo English Through Pop Music. My name is Lucca. I live on the second floor. How can we dance when our earth is turning? Linda de dar inveja nas inimigas. É das poucas que ainda acompanho no Face e com quem cruzo vez que outra. Segue linda e é dona de uma confecção de moda em couro.

Jorja
Grande nome! Esta também era bonita Porém, um pouco mais miúda. Não era muito da zoeira. Mas como só lembro de pessoas boas, devia ser uma boa pessoa. A última vez que a encontrei foi há uns 10 anos no Country Club. Acho que a reconheceria hoje. Se ela sorrisse, sim, que tinha belos dentes. 

PG
Este era filho de juiz. Desembargador, até, talvez. Ou então, promotor. Procurador, quem sabe. Enfim, gente importante da Justiça. Morava nos altos da Duque, em um baita apê antigo e com vista para o Guaíba. Fizemos um trabalho de grupo na casa dele, mas isso não faz sentido, porque não havia tema de casa no Cultural... Quanto mais em grupo. Creio que se parecia com o Paulo Germano da ZH, por isso o identifico assim agora. 

Rodrigo Lorenzoni
Também conhecido como Urninha. Meu grande amigo de infância e até os dias de hoje. Vivemos grandes momentos no Aplicação, no Ribs ou no Cord, mas não lembro de nenhum no Cultural. Só tenho a impressão de que foi meu colega por um semestre, talvez no da Aretusa, embora isso não faça muito sentido. É veterinário, empreendedor e foi presidente do CRMV. 

Marcos
Ruivo flamejante, tinha cabelos lisos e em formato de cogumelo. Morava na Almirante de Abreu, bem pertinho da minha casa. Devia ir de lotação Rio Branco também. Nos cruzávamos seguidamente. Tinha um cão Akita. Akitas não são muito afetivos. 

Espero lembrar de outros com o tempo... E ir editando o post. Se quiser marcar colegas que fizeram Cultura, use os comentários :)
 

 
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Sebastião Ribeiro
Diretor

Cartola - Agência de Conteúdo
(51) 9994-0519

quinta-feira, setembro 28, 2017



Então, vou contar a origem da expressão 'ficha rosa'. Agora tá na moda, por causa da novela da Globo, mas de há muito me intriga. Ouvi pela primeira vez anos atrás, referindo-se às recepcionistas de eventos que também aceitavam sair com os executivos. Em troca de uma boa remuneração, claro. Ficava pensando em como se abordava uma profissional em uma feira:

- Oi. Você é ficha rosa?
Ou fantasiava o momento em que eu seria abordado.
- Olá, esta injetora de plástico é perfeita para sua empresa. E eu sou ficha rosa.
Cheguei a ouvir (ou imaginar) que as garotas de programa usavam fichas rosas - destas de apostas em jogo de pôquer, redondinhas, plásticas - e as entregavam junto com o cartão de visitas, para dar 'o sinal'.
Também já ouvi falar da expressão 'book rosa', referindo-se a catálogos de modelos que faziam um pouco mais do que modelar. Em verdade, já vi um catálogo desses, em um hotel. Muitos hotéis, de luxo, inclusive, tinham seus books. Mas o que me foi apresentado não era rosa (a propósito, não utilizei os serviços ofertados).
No começo desse ano, perguntei a uma garota de programa famosa no Twitter o que era ficha rosa. 'Garotas de programa que só saem com os caras top, muito ricos', ela deu o reply. Mas eu estava lendo um livro revelador e respondi: 'Então vou te contar pra ti'. E expliquei.
Na década de 1960, nos Estados Unidos, a Playboy, a revista do Hugh Hefner, iniciou um ousado empreendimento: uma cadeia de clubes masculinos denominados Playboy Club. Abriram várias filiais. Diz a Wikipedia que o negócio funcionou até 1991 (depois ainda abriram uns isoladamente pelo mundo). Mas o forte mesmo foi nas décadas de 60 e 70.
Os Playboy Clubs eram clubes masculinos, onde homens se reuniam para beber (muito), provavelmente fumar (muito), admirar e ser atendidos por coelhinhas da Playboy. Vestindo a típica e diminuta roupa, elas eram as garçonetes. A disputa por uma vaga de coelhinha era enorme. Para se trabalhar nos clubes, as meninas tinham de passar por uma seleção rigorosa, na qual os atributos físicos contavam muito. E havia até exame ginecológico! Para ver se estava tudo em ordem, digamos assim, nos Países Baixos.
Lá dentro, elas seguiam um (nem tão) rígido código de condutas. Perdiam pontos se usassem salto baixo, se maquiassem mal, tratassem mal os clientes. Mas ganhavam muito se estimulassem o consumo de bebida. Daí a origem da clássica oferta das garotas de programas em boites especializadas Brasil afora? 
- Me paga um Martini…? 
Que com o tempo virou 'me paga um Keeeeep?' (renho amigos da praia que jé desembolsaram até R$ 50 por um Keep Cooler, só pra esticar o papo com a garota) e, por fim, o 'me paga um Marula com Rédi Bull?'. 
Mas nos Playboy Clubs era pra ser diferente. O manual das coelhinhas proibia-lhes sair com os clientes. Havia inclusive uma firma de detetives, a Willmark, com orientação de 'usar seus homens mais atraentes para fazer propostas às colehinhas e mesmo oferecer até 200 dolares'. Na prática, porém, algumas meninas eram demitidas porque se negavam a sair com gerentes e clientes com a Chave Um: os VIPs.
Bom, mas vamos ao que interessa. Para se tornar coelhinha nos Playboy Clubs, o primeiro passo para a menina era preencher com seus dados uma extensa FICHA ROSA. A origem da expressão é um simples fichário cor-de-rosa, e não uma ficha de poker, como minha imaginação construíra!
Onde eu aprendi isso? No Grande Livro do Jornalismo, editado por Jon Lewis, que traz reportagens históricas clássicas. Entre elas, uma de 1963, da Show Magazine, assinada por Gloria Steinen, que se submeteu, para a matéria, a todo o processo de seleção de coelhinhas. A propósito, sua reportagem repercutiu muito e fez Heffner acabar com o exame físico feito nas candidatas. 


quarta-feira, maio 10, 2017

Quer uma cortesia para o F5 Trend Hunting?

Trend Hunting - Tendências fresquinhas para seu negócio + conexão SXSWL
Trend Hunting - Tendências fresquinhas para seu negócio + conexão SXSWL Trend Hunting - Tendências fresquinhas para seu negócio + conexão SXSWL Luciana Bazanella é consultora, trendhunter, palestrante e professora nas áreas de marketing digital, gestão de mídias sociais, conteúdo e inovação. Leciona nas cadeiras da FGV nos MBAs em Marketing e Marketing Digital. É palestrante com presença em eventos nacionais e internacionais, como o SXSW, de Austin, no Texas, onde buscou inspirações para o seu mais recente TrendReport lançado ao mercado.  
Trend Hunting - Tendências fresquinhas para seu negócio + conexão SXSWL
  Empreendedores, Donald Reis (SEPRORGS/Qualitor) e Gustavo Hansel (GH Branding) se juntam à consultora Luciana Bazanella para bater um papo descontraído sobre o que rolou no SXSW 2017, em Austin (EUA). Na pauta, tendências do mundo da comunicação e tecnologia, além de dicas práticas para quem quer curtir os maiores eventos da indústria criativa no mundo, como o SXSW e o Web Summit, em Lisboa (Portugal).  
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19h: Welcome Coffee

19h30: Palestra: Trend Report: as cinco macro tendências que são chaves para a inovação. Palestrante: Luciana Bazanella.

20h30: Painel: Conexão SXSW: o que rolou em Austin e como curtir os grandes eventos da indústria criativa do mundo. Debatedores: Donald Reis (SEPRORGS/Qualitor); Gustavo Hansel(GH Branding); Luciana Bazanella.

INSCREVA-SE AQUI

 
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quinta-feira, junho 04, 2015

Um sabor reminiscente que me assaltou. Na casa da minha avó Maria e de meu avô José, tinha aqueles copos de metal. O corpo era colorido e o bocal, cor de lata mesmo. Eles ficavam em uma Frigidaire, daquelas com porta (bem) grossa e uma enorme maçaneta, praticamente um manche, para abrir. Lá dentro também ficava o Guaraná Antarctica "Champagne", garrafa de vidro. Tomávamos nos copos gelados. O gosto metálico do copo resfriado misturado com o do Guaraná Antarctica Champagne, isso que me veio agora.

sexta-feira, abril 17, 2015

Nota Legal (mas nem tanto)

Pois. Como ontem passei três horas e meia da minha nem tão preciosa vida arrancando cabelos da minha nem tão basta cabeleira, tentando extrair uma nota fiscal eletrônica, tomo a liberdade, sem a licença da Lucia Porto, de usar os comentários que fiz sobre o desabafo dela e de vários contribuintes do meu feed. Quais sejam:

1.

Eu só fico louco que tem um FDP ganhando muita grana com aquela leitora de cartão, e parece que é o mesmo que ficou milionário com a troca das tomadas, fabricando benjamins e adaptadores. Porra: é uma maquininha chulé, que o Banrisul dá de graça, nos custou 50 pilas porque nosso Departamento de Compra é Ninja e foi buscar na Assis Brasil, mas na Certisign e na maioria das lojas sai por 150 paus! CENTO E CINQUENTA DILMAS vezes o número de emissores de nota em POA: gira mais dinheiro do que toda a safra gaúcha de SORGO!

2.

Eu resolvi sozinho a bronca, laralaralala! Depoia de 3 horas, me senti como se tivesse concluído a Travessia do Pontal de Tapes. Primeiro, tive de instalar o driver da leitora de cartão; depois, atualizar o Java (atenção: "atualizar o Java" não é um eufemismo sexual); depois, tive de limpar cookies (tampouco "limpar cookies") e mexer numas configurações de Java, de novo ele, seguindo um tutorial. Ato contínuo, descobri que não tinha o programa da Certisign e o instalei. Ainda assim, o problema persistia. O SAC da Certisign me mandou fazer um teste e descobrimos que a falha era da leitora de cartão, aquela dos 50 pilas. Já estava com a leitora da Certisign, aquela de 150, no carrinho virtual de compras e planejando sair correndo pra buscá-la a seguir na Oswaldo Aranha, em frente ao Julinho, quando resolvi tentar uma última cartada: colocar o cartão de cabeça pra baixo na leitora. Bingo!!! É isso: é um esquema pensado para você terminar com a sensação de que a culpa é toda sua, da sua burrice! Ora bolas, estúpido: achar que o cartão deve ser inserido com a face pra cima...

3.

A mensagem que ralou todo mundo era a da 'applet'. Pois, esta da applet eu resolvi com um tutorial, mas é impensável pensar que o contribuinte tenha de ir até esse nível de configuração para poder emitir uma nota. Disseram pra ele que era simples, que ele podia ter empresa, que com um papel e uma caneta ele emitia uma nota. Podia ser em letra de forma mesmo. Ou cursiva, até. Não aceito nada mais complexo online do que um papel e uma caneta!

4. 
Resolvi o problema de "a applet não está carregada" aqui, no próprio site da Nota Legal de Porto Alegre:
http://notalegal.portoalegre.rs.gov.br/default.php?reg=29&p_secao=113&hc_location=ufi



sexta-feira, março 13, 2015

Então, naqueles 6 dias que Deus tava lá, criando o mundo, que no sétimo ele arreou na rede, teve duas epifanias. Tu sabe, epifania, aquele momento em que tudo se ilumina e faz sentido e blablabla. Tipo assim: dois momentos em que Deus encontrou Deus. No primeiro, ele criou o figo. Já tava demais, os seres já tinham algo que lhes daria um gostinho da perfeição, da plenitude, do absoluto. Uma pista de que Ele mesmo existiu e não tava ali pra brincadeira. Tava bom, mas daí o Cara teve outra epifania e dela surgiu a mulher. Porra, Deus já tinha feito o figo. Daí, pá, fez mais umas coisinhas sem importância, e quando já tava quase vazando, o Cara fez a Mulher. Velho, não é que o Cara fez tudo; é que Ele fez o figo e a mulher! Daí, correu pro abraço, deslizou pra rede pra tirar uma torinha no Domingo e se consagrou. O Pinta era fodido na lança mesmo!


Pais e filhos


Hoje foi meu dia de levar o piá ao colégio. Ele recém entrou na primeira série do primeiro grau - agora diz ensino fundamental. Ainda está deslumbrado com o 'colegião'.
Cruzamos a catraca de entrada, e eu pensando... até quando?
- Meu filho, mais uns dias e já dá pra te deixar aqui na roleta, né?
- Acho que sim.
- Sabe como chegar na sala?
- Sei. Se tá sol é pra ir pro pátio de areia e se tá chovendo é na área de convivência - sim, ele disse 'área de convivência'.
Atravessamos o patiozão de mãos dadas. E eu pensando... até quando?
Assim que chegamos à entrada do pátio de areia, o João sussurra.
- Pai, olha ali a Ana...
Aqui um parênteses. Em três semanas de escola, o guri já se apaixonou por três colegas. Primeiro a Rafa, depois a Lavínia, e agora a Ana. Quando penso nisso, me dá um orgulho. Garanhão! Mas daí me reprimo. Pensamento sexista! E se ele for gay? Só fala nas gurias, nunca nos guris. Se ele for gay, tudo bem, se ele for gay, tudo bem... fico me repetindo.
Olho pra Ana, magrinha, pequenina, duas caxuxas laterais. Está com medo de ir sozinha pro pátio de areia, enrabichada nas pernas dos pais. Olho para eles, esperando uma cumplicidade que não vem. 
- Então, esta é a famosa Ana?
- A-han. E esse é o João gremista?
- É!
O guri me dá um abraço apertado, de 20 segundos. Diz que me ama. Dá beijo. Às vezes ele faz isso. Fico pensando: será que vou morrer hoje? Ele previu algo? Por que esse abraço tão caloroso, assim, do nada? Até quando?..., eu penso.
Fico tonto com o abraço, com o beijo. Quando ergo a cabeça, ele já está dois metros longe. Deu a mão pra Ana. Eles se afastam no pátio de areia. De costas. Cada vez menores. Mãos dadas. Não olham pra trás. E é tão lindo! 
Viro de costas e me vou. Sim, ele previu. Eu morri um pouco hoje. E também morri de amor!

Te amo, meu filho!!!


domingo, fevereiro 15, 2015

Sei que era uma mansão, pelo espaço interno. Não posso dizer muito dela por fora. Vivia envolta pela cerração de Gramado, pelas araucárias e caneleiras. Mas isso não importa. A história vale pelos seus personagens. Jamais vou entender a relação entre eles. Era um Big Brother armado pelo destino. Todos ali para aproveitar a grande festa de Ibiza em pleno Festival de Cinema de Gramado de 2003. A atmosfera era de O Anjo Exterminador, filme do Buñuel: eu imaginava se repentinamente ficássemos presos ali, para sempre.
Mas vamos ao que interessa:

- Pintinho: um dos sujeitos mais boa-praça e generosos que conheci. No restaurante, fazia questão de pagar a conta da mesa inteira. Sempre com dinheiro vivo. Era de Caxias e tinha sotaque de gringo. Acho que morou na Itália um tempo. Trabalhava com máquinas de azar, num tempo em que não se sabia se isso era legal ou ilegal. Não duvido que fosse operador da loteria zoológica. Acaso se tornasse milionário, temo que não administraria bem a fortuna: gastaria tudo oferecendo os melhores jantares e as melhores viagens para os amigos. Era exímio cozinheiro. Chegou para o fim-de-semana numa caminhoneta tipo Pampa, caçamba aberta, tomada por tralhas de cozinheiro: panelas tipo wok, caçarola, de pressão, facas, um imenso queijo holandês, um fogão de campanha industrial. Preparou a melhor massa que já comi ever. Sonho com ela até hoje: espaguete na manteiga com molho e raspas de limão sciciliano. Al dente, perfeita, inesquecível.

- Tio Zeni: o mais velho da turma. Parece que já faleceu (sad...) À época, Tinha uns 40, 50 ou 60, não dava para precisar. Vivia acompanhado de um sobrinho de oito anos. Falava alto e desafinado. Tinha uma amável e proeminente pancinha e cabelos grisalhos pintados de dourado. Sotaque de gringo. Tão boa-praça quanto atabalhoado. Engraçado pacas. Na volta da festa, fumei um cigarrinho de artista com ele. Dentro do carro, pra não dar na cara do sobrinho.

Eu: solteiro. Idade: 24. Sabe-se lá por que aceitei curtir o fim-de-semana do Festival a convite de um casal de amigos, numa casa com um bando de desconhecidos. Andava em busca da paz. À procura do meu eu interior, sabe? Provavelemente era apenas reação a um trago monumental do fim-de-semana anterior. Ou, quem sabe, não. Fato é que prometi manter comportamento irrepreensível neste final de semana. A ponto de me tornar um coadjuvante naquela casa. Um mero espectador. Gosto de pensar que aquela jornada foi decisiva para que o casal de amigos decidisse me apresentar para a Rafa, irmã dele, cunhada dela. Afinal, não podia ser tudo mero acaso...

Os sócios:.eram bonitos. E fortes. Porte atlético, corpos moldados em academia. Muito parecidos, tinham sido sócios. E melhores amigos. Inseparáveis. Há um tempo, eram inimigos mortais. Alguma ronha na sociedade... A bronca tinha ido parar na justiça. Não se falavam há meses, anos. Eram adversários, rivais. Odiavam-se tanto quanto tinham se amado. A presença da dupla na mesma casa era motivo de tensão. Debaixo do mesmo teto, não trocavam olhares, muito menos palavras. Em determinado momento, nós, os homens, iniciamos um campeonato de sinuca: havia uma mesa profissional em um dos cantos da mansão - bem iluminada, jogo de bolas reluzente. Eram eliminatórias. Calhou que os dois se cruzaram na semi. Começa o jogo. Eles não se falam, cruzam olhares pelo reflexo das bolas. Lá pela pelota três, a tensão era tanta que nós, os demais, resolvemos deixar a volta da mesa. Os dois ficaram jogando. Caiu a primeira bola oito e começaram outra partida. E outra. E outra. E outra. E outra. E outra. Jogaram por horas a fio. Um adivinhava a jogada do outro. Mas não falavam. Juro: foi lindo! De longe, todo mundo se entreolhava: 'deixa eles, deixa eles...", dizíamos, baixinho. Espero do fundo do meu coração que depois daquilo tenham retomado a amizade.

Mariá: não foi à toa que a deixei por último. Era linda. Deslumbrante. De tirar o ar. Pele alva e cabelos negros, ondulados. Alta, magra, soberana. Mas dava para notar alguma fragilidade no olhar. Namorava um dos rapazes da casa. Era de Balneário. Não cansava de repetir isso. Me ensinou que quem é de Balneário, não diz Camboriú, nem Balneário Camboriú, mas diz Balneário. Tinha uma loja, lidava com moda. Vestia-se lindamente. Por volta das oito da noite do dia da festa, passou a ser o assunto da casa. É que tinha agarofobia. Ou agorafobia, não sei como diz. De qualquer modo: medo de multidões. E as festas da Ibiza eram um aperto, um povo, milhares de pessoas roçando ombros em um galpão. Davámos todos conselhos à Mariá, que não tivesse medo, que estaríamos junto, que na entrada faríamos uma espécie de cordão, o namorado dela a protegeria. Quando entramos na festa, a escoltamos. Depois, foi cada um pro seu canto. Ficamos sabendo que ela não aguentou o tranco. Voltou para casa às duas, e as quatro da matina pegou a estrada com o namorado com destino a Balneário. Temi pela vida dos dois. Mas sei que chegaram bem. Rezo todas as noites para que ela tenha melhorado da agorafobia. Ou agarofobia. Lembro dela toda santa vez que alguém diz que é de Camboriú ou de Balneário ou de Balneário Camboriú. Tenho verdadeiro carinho por todos que participaram daquele final de semana.

Julius Rigotto: devia estar em algum lugar VIP da Ibiza. Qualquer problema, era para falar com ele, nos orientaram os caxienses da casa. Não foi preciso. Mas não poderia deixar de citá-lo em uma história tão surreal.

* Obs.: essa história é baseada em fatos e pessoas reais. Baseada. Na verdade, é absolutamente fiel à minha memória. O que não quer dizer em absoluto que seja um relato fiel do que rolou. Pelo contrário: tenha certeza que minha mente modificou quase tudo ao longo desses 11 anos que nos separam desse final de semana.