terça-feira, dezembro 31, 2024

De bailados e amores jamais vividos

Imagina esta dança

Imagina... Todos nossos beijos apaixonados no meio das ruas, atravessados pelo ventinho da madrugada, sexos suarentos nas coxias da vida, vergonhas tuas por valsas (mal) dançadas por mim nos bailes, todos meus aplausos orgulhosos ao fim de todas as tuas apresentações, e sempre aquela vontade de gritar pra plateia: esta é a minha dançarina, minha! Imagina... todos os reveillons passados na praia, nossos filhos misturados, todas nossas brigas, todas as caipiras em mesas de plástico na calçada, todas as manhãs de domingo no cachorródromo, todos os mates jamais cevados, nossa paixão que nunca houve nem haverá bailando pelos ares, embalada pelo ventinho, dançando no vácuo do universo com todos os amores não vividos deste mundo! Imagina, Karine, que lindo, Karine...


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Lado A

Ela, numa tarde qualquer de pandemia, dançando sozinha no beco, tão alegre, tão solta, tão linda.

Ela, um boné, um headphone, uma rua. Ela, na parede do Ocidente, na parede do Babilônia, na parede. Ela, Meu Erro, palha mascada na tela, botoneira sem manual de instruções. Ela, preservando a intimidade da casa revirada (o que teria na gaveta da mesa de cabeceira?). Ela, "eu gosto de sexo", "eu fui fofa, mas", "eu quero me vulnerabilizar". Ela, toda palestrinha, toda sabida, toda sapiosexual, toda tdah, toda ah, andando e se equilibrando. Ela, um schnitzel, um stubb, um strudel, uma casinha bem longe desta rede. Ela, pensada, imaginada, amada e odiada no vácuo da minha mente. 

Mas - fundamentalmente e sempre - ela, numa tarde qualquer de pandemia, dançando sozinha no beco, tão alegre, tão solta, tão linda, tão toa...

Miro do Sakura

Quando eu estava meio de mau humor, nem pestanejava ao escolher onde jantar: no @restaurantesakurapoa , pra dar umas risadas com o Miro, comer bom sushi e voltar leve pra casa. Aliás, a estratégia também vale pra casais naquelas noites de conflito ou ranço matrimonial (#ficadica).

Por isso, fiquei feliz de ver este querido se recuperando de um ano de m... , em que passou acamado e sem trampar, com restau em obra eterna. Miro é gigante e, mais uma vez, cheguei macambúzio e saí sorrindo , hoje no @sakurakaiten , onde fomos só pra prosear.

Pra completar, tive a alegria de conhecer a Pietra (sempre soube que Miro era baita pai; a guria é querida, inteligente e educada). E de poder voltar a comer sushi, depois de 10 meses, ao lado do @joaorsaribeiro !

Esperando, então, a recuperação plena desta figura, pra ouvir sobre Campos dos Goytacazes, fumar sapo e conversas com bovinos.

#tmj

sábado, novembro 16, 2024

Meu amigo Otávio

Eu nao sei como eu vivi tanto tempo sem duplar com um vibrador. Quando meu parceiro sai da gaveta, já dá uma animação. Alivia a língua e os dedinhos, prenuncia a pequena morte. Meu best é o Otávio, um mini sugador. Fui eu mesmo que batizei. Meio sem querer, meio por surdez, mas ele parecia predestinado a se chamar assim. Foi nomeado quando minha parceira tirou de uma valise enorme quantidade de vibros (fingi costume: 'super normal', que mulher não tem sua maleta???'). Daí, ela me apresentou:

Ela: _Este é meu preferido, meu pequeno notável..._
Eu: _Quem? O Otávio????_

Pronto, batizado. Pelo seu porte, o pequeno notável não compete com homem ou piroca alguma. Pode ser manipulado discretamente, em qualquer posição. De quatro ou de costas o parceiro nem vê. Mas curto um franguinho assado, adoro acompanhá-lo em serviço: tão diligente, tão discreto, tão eficiente.

Será que isso me classifica como cuckhold??? Espero que não, porque sou bem conservadorzinho - até assusto com as cordas que tu postas. E quero minha mulher pra mim, só pra mim! E pro Otávio...

sábado, setembro 14, 2024

Na casa da girl

Na casa da girl. Transando. Penetrando. Eu:

‐ Quero morar aqui!

(função cerebral migra do lado direito para o esquerdo)

‐ Quero dizer, quero morar aqui, dentro de você, e não dentro da sua casa.

(esforço pra energia cerebral retornar ao lado direito)

sexta-feira, setembro 13, 2024

RIP Mauro Vieira

Era sempre uma tranquilidade quando tínhamos o Mauro Vieira como dupla de foto na reportagem. Não tinha ruim pra ele. Um cara que equilibrava força e leveza; alegria e seriedade; profissionalismo e amizade. Um colega agradável, que transmitia confiança pra toda a equipe. Acima de tudo, um olhar curioso, atento e sensível. 

Lá por agosto de 2008, estávamos há uns três dias na estrada, reporteando sobre a revolução do eucalipto nos campos do Rio Grande. Exaustos, assinamos o checkin às 19h no confortável Hotel São João Palace em Santiago do Boqueirão. Não baixamos mala, nem nada, reingressamos no auto e andamos mais 70kms em sentido contrário ao destino final, por asfalto ruim e estrada de chão. Trocamos os lençóis engomados da sofisticada hotelaria missioneira pelas rústicas camas da Fazenda do Perpétuo Socorro, na Cândida Vargas.

Porque, pro Mauro, e pra equipe que ao fim e ao passo ele comandava, jantar uma paleta de ovelha texel assada na brasa, mirar as estrelas sem a interferência das luzes da cidade, ver o amanhecer no campo e sentir o minuano no lombo valiam muito mais do que duas horas extras de estrada. 

A horinha que passamos na fazenda ainda em meio ao nascer bastou pra ele fazer estas fotos que ninguém pediu, ninguém mandou, ninguém pautou. Só porque era fotógrafo e trabalhava com o que amava (na mesma trip, ele fez o mesmo em um esquecido cemitério de Campanha em São Gabriel).

Regressando à Capital, ainda paramos no São João só para assinar o checkout do hotel como se de fato tivéssemos usado - afinal, ninguém queria ficar dando explicação pro ADM. O que importava e sempre importaria pro Mauro eram as histórias e as imagens.

RIP, @mvieirafoto

Mauro Vieira era fotógrafo, trabalhou no Jornal Zero Hora por anos, faleceu em 12 de setembro de 2024.

PS: poucos dias depois da reportagem, a iniciada revolução do eucalipto nos campos do RS foi sufocada pelos desdobramentos da crise internacional que quebrou as papeleiras, desprotegidas do baque da desvalorização do real. A linda matéria que fizemos virou pó na história, afinal, não previmos (como ningém, aliás), o colapso das empresas e projetos de celulose gaúchos.


segunda-feira, agosto 19, 2024

Em Parintins, faça como os parintinenses: vá de moto!

Cheguei no quarto, digo, no cativeiro e fui recepcionado com um abraço pela minha anfitriã (eu nunca a tinha visto, mas aparentemente ela teve uma Síndrome de Estocolmo ao contrário e se afeiçoou ao sequestrado).

Expliquei que ainda precisava passar no aeroporto, ao que ela sugeriu:

"Vai de moto!"
"Que moto?", perguntei...
"A minha moto. Tó a chave"
"Mas eu não tenho carteira de moto"
"Não tem problema, não, aqui não precisa"
"Tá, mas eu não tenho capacete, este teu não vai me entrar"
"Precisa, não, nesta época ninguém pede"
"Moça, olha só, eu não sei andar de moto"
"É fácil... Vá!"
"Moça, olha só, eu nunca, nunquinha, dirigi uma moto. Nem mobilete. Nada..."
"Experimente..."
"Mas tem de fazer marcha??? Se tiver, eu não vou..."
"Tem, é com o pé, pra cima e pra baixo, experimente!"
"Tá! Me dá esta moto então"

E saí todo atrapalhado, dando solavanco a cada reduzida na marcha e voando pra trás a cada vez que colocava segunda ou terceira. Não caí. Não morri. Estou aqui.

sexta-feira, julho 05, 2024

Um sonho

Sobre esta trip pra ver o Caprichoso. Possivelmente, é a primeira vez que "realizo um sonho". 

Todas as coisas, conquistas na minha vida, foram meio que acontecendo naturalmente. Eu não sonhava ter filhos - eu os amo mais do que tudo, queria ser pai, mas era algo que tinha convicção de que aconteceria. E assim foi, como se o curso natural da vida.

Eu não sonhava trabalhar aqui ou acolá - desejava, talvez. Eu não sonhava conhecer Paris ou Nova Iorque, porque sabia que a qualquer hora pisaria nestas terras, privilegiado que sou. Eu nunca tive um ídolo pra sonhar encontrar.

Um sonho tem de ter algo de inatingível, de ser desejado, mas não esperado. Um sonho, a gente tem de abraçar e dizer "eu vou lá fazer", não importa o perrengue; exige um querer, um esforço incomum e um propósito... 

Nesse sentido, ver o Caprichoso deve ter sido o primeiro sonho realizado da minha vida - e isso é incrível, porque, de verdade, eu achei que nunca aconteceria. 

E, agora, eu só quero é ir de novo! Parintins é como a garota mais bonita da sala de aula, a cunhã poranga por todos desejada, que te maltrata, te pisa, te humilha, mas pra ela tu quer sempre voltar.

Desculpa, Floripa, mas a verdadeira Ilha da Magia não é sulista; é nortista e adora dormir numa rede. Desculpa, Nova Iorque, mas a city that never sleeps fica no meio da Floresta. Desculpa, encarnado, desculpa colorado, mas ser gremista e caprichoso é um sentimento porreta, bem maior do que o planeta, efervescente calor. Só quem é sabe a extensão deste amor.

quarta-feira, junho 05, 2024

Herança

"Não sou de choro fácil, a não ser quando descubro qualquer coisa muito interessante sobre ácido desoxirribonucleico" 
Matilde Campilho



Vem de mim ou vem de ela?

Não importa. Depois que junta, existe eu-ela. Engrenagem da bicicleta, encaixa e anda, um e um e um e um. Encaixa, encaixa...

Não! 

Que não gruda, é feito corda, rédea. Guasca, enreda. Só assim é!

Não!

É como massa, massinha, que gruda mas não modela  Torce, enrola, enrolar, enrola... que vira fogo! Fogo não se quebra: é uno, só se apaga. Ou se acende.

Neu ou nela? 

quarta-feira, abril 17, 2024

Pessoa de Segurança

Seguindo alguns perfis de autistas, maioria nível de suporte 1 e com diagnóstico tardio, conheci o conceito de PESSOA DE SEGURANÇA. E achei tão lindo. É aquele amigo, familiar ou colega que conhece todas as tuas dificuldades e, quando consultado por ti, ou mesmo ao notar que estás enfrentando dificuldade em compreender alguma situação, interfere e te ajuda a traduzir o mundo. 

Actedito que esse conceito, sem invisibilizar a dificuldade de quem tem diagnóstico, não precisa se restringir aos atípicos. Sinto a @isabelmarchezan como minha pessoa de segurança. A gente pode andar afastado, mas sempre que estou passando um perrengue ou situação extraordinária na vida, ela brota tipo o Mestre dos Magos.

E me tira da inércia, me espinha com suas urtiguices, me chacoalha no samba, me traduz o mundo. Para o sem-freio aqui, isso significa até mesmo avaliar se uma atitude, manifestação ou texto estão adequados.

Este aqui vai ser publicado sem o selo Urtigão de adequação: não passou por ela. Mas as pessoas de segurança também servem para isso: nos dar segurança para que possamos ser quem somos.

Obrigado, Isa, por ser minha pessoa de segurança!


sexta-feira, março 15, 2024

Do neida

Do neida, toalhas desbordadas.
Do neida, lágrimas quentes.
Do neida, dor lancinante.
Do neida, no colo da filha.
Do neida, cama, pão, salame.
Do neida, torto na rua.
Do neida, cruzando a noite.
Do neida, pobre(s) criatura(s)
Do neida, xeque-mate com água.
Do neida, droga e salada.
Do neida, tecnobloco no pique.
Do neida, bafejo do samba.
Do neida, colchão e tapete.
Do neida, minha toca.
Do neida, eu e eu.
Do neida, do neida...



quinta-feira, março 14, 2024

É doido, né, Lari?

Do nada, apareço
Um dia anverso,
Outro do avesso.

quarta-feira, março 06, 2024

Fernet-Cola (editado)

Até ontem eu dizia que não estava pronto para qualquer coisa que não fosse suave e na rua, vendo a paisagem passar, talvez num barzinho destes de calçada.

Mas então a Isabel me levou a um boteco na Praça Garibaldi, arrisquei entrar pra um pipizinho, e a primeira bafejada de samba, ouriço e suor na fuça funcionou como um jato de Jimo Penetril Desengripante em uma sólida engrenagem Klingelnberg, que só estava meio enferrujada, mas era feita do mais resistente aço alemão, dotada de um mecanismo preciso para rodar no ritmo do samba, do Fernet-Cola e do Xeque-Mate.

Então, eu olho em volta e, do neida, beijo triplo, quádruplo, os caras, as minas, elus todes... E era como se eu tivesse dado 20 voltas ao mundo e chegado no mesmíssimo 15 de novembro de 2003, logo depois do primeiro beijo que definiu duas décadas de vida. Assim, descrevi, no post sobre essa conquista, o momento que a sucedeu, na buate, com as amigas:

_Beija, beija, tá calor, tá calor! Baba, baba, sem amor, sem amor! Lambe, lambe, sem pudor, sem pudor!_

Agora na Praça Garibaldi, era como se nada tivesse mudado, senão eu. Como se eu tivesse saído da festa na Plataforma 15 de Novembro, embarcado no metrô, vagado vinte anos pela cidade com ela, depois com nossos pequenos, e sido expelido na mesmíssima plataforma. E ali estavam todos os brincantes, ainda me esperando.

Quando desembarquei, quem me deu a mão foi bem a amiga que deu tchau e desejou tudo de bom e de melhor em 2003.

-Foi bom o rolê? Também dei uma voltinha, mas eles ainda estavam aqui, nos esperando...

Obrigado, amiga.

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(Para o post original, voltar a dezembro de 2003)

sábado, setembro 23, 2023

Atormentado

Eu devia ter medo de temporal. Muito. Quando tinha 3 ou 4 anos, fiquei um dia aos cuidados de minha avó - não era comum, mas eu estava de novo com amigdalite e faltei à aula. Naquela tarde, veio uma tormenta de primavera daquelas. A vó entrou em transe e começou a rezar freneticamente, terço na mão, absolutamente alheia ao neto. Me senti sozinho e esquecido. Traumatizei. 

Também tinha as tias que cobriam os espelhos no temporal. Pra quê?

Um dia entendi melhor o pavor da vó. A familia dela tem campo num lugar chamado Cândida Vargas. Perto de Itacurubi e Unistalda. Em um desses anos, não faz muito, saiu aqueles mapas oficiais das cidades mais atingidas por raios em 12 meses. As duas constavam nos Top 5 do Brasil. Nunca soube se era uma coincidência no ano ou condição geográfica e geológica permanente. Sei que lá de fato as tormentas assustam.

Herdei do meu pai o oposto do que traumatizei com a vó. Quando o dia virava noite, ele ia pra janela e ficava olhando admirado a chuva e os raios. Que linda a natureza! Que venha água! Agora tudo vai verdejar! É lindo, do topo de um edifício de concreto bem armado. Mas a casa lá de fora (a mesma que ninha avó morou) parece recheada de barro. O pararraio é um cabo torto que corre a meio palmo da parede externa. Eucaliptos do potreiro são queimados por raios. E todo ano se perde alguma rês. Última tormenta que presenciei, me enfiei debaixo das cobertas, mas a cama e a parede tremeram com o estrondo de um raio que deve ter caído ou no pararraio ou a menos de 50 metros da casa. Ninguém gritou nem falou nada na hora. Silêncio total. Só uns 30 segundos depois as pessoas começaram a se mexer e comentar? Tu viu este??? Tu viu??? Como se desse pra não ter "visto"...

Também, outra vez, choveu muito quando a peonada estava lidando no campo. Quem conhece o ritmo do Pampa sabe que o tempo passa diferente por lá. Gauchada não aperta o trote, o papo, o mate, a carne no fogo. Ninguém sai correndo pelas coxilhas como em filme de bangue-bangue. A vida no campo não é um faroeste. É mais ou menos como um filme japonês - devia ser Kurosawa - que vi com minha mãe quando adolescente e traumatizei (traumas, traumas, Freud me acode!)... A câmera parou numa rã coachando e ali ficou por uns cinco minutos. Assim é o ritmo do homem do campo. O ritmo da natureza. Mas um dia estavam de 'a cavalo', longe das casas, quando se armou a tormenta. Um raio caiu a menos de 100 metros da gente. Deu aquelale clarão, um cavalo rodou, e a peonada começou a galopar freneticamente pras casas. Meu coração saía pelas orelhas. Lembrava um pouco os veranista fugindo em desordenado bando da praia quando o céu escurecia. 

Na praia, aliás, a tormenta dá um misto de medo com excitação. Por um lado, a vontade de entrar no mar,  neutralizar os pingos grossos da chuva. Por outro, o medo racional dos raios. Recordo de um verão lá peloscanos 90, quando chegou a notícia de que um homem morrera de raio na praia grande de Torres. Isso foi minutos depois logo de eu ter corrido da areia da mesma praia e ido pra casa. A noticia veio no rádio de pilha da cozinheira da minha tia, porque o bairro inteiro ainda estava sem luz. Lembro da varanda em que estava quando me contaram e da sensação palpável de que o risco era real. 

Hoje, quando estou na cidade, tenho o fascínio do meu pai pela tormenta. Quando estou na praia ou no campo, um misto de fascínio com pavor. É nesta hora que gostaria de ter um recurso que a vó tinha, mas me falta: Fé.

sexta-feira, agosto 11, 2023

La Pastora

Tenho vontade de mandar meus pastores dar um rolê com passeador algum dia. Só pra ver eles no meio da matilha e dizer: 'olha: ali se vão meus pastores em alegre bando'.

Mas na verdade, nossa rotina tem sido assim: 9h da manhã levo eles na Sheeps Square. Eles sempre fazem número 1 e número 2, não raro Teo e Ive ao mesmo tempo. Assim que finalizam esta tarefa, eu pego as bolinhas de tênis e dou um pau de brincadeiras neles. Correm, correm, correm. Até semana passada, corriam e se matavam a unhas e dentes mesmo, brigando pela bolinha. Agora que descobri que se eu atirar duas bolinhas ao mesmo tempo não dá mais briga, minha vida e meus passeios deram um salto de qualidade incrível. 

A Sheeps Square se tornou o lugar ideal para eu levá-los. Conta com infraestrutura completa: grades para impedir que fujam, nove bolinhas de tênis à disposição dos tutores, um frisbee, saquinhos para recolher cocô, quatro bebedouros feitos de garrafas pet ressignificadas, taquareiras que protegem da chuva.

Para uma pessoa esquecida como eu, que nunca lembrava de levar brinquedo para o parque, isso representou um novo patamar de fruição do tempo com os caninos. E uma sensível melhora na minha relação com eles. 

Depois de correrem até se estrebucharem, eles deitam na grama e colocam a língua para fora. Eu me sento junto por uns 5 minutos e apenas os admiro. 

São apenas 20 minutos de correria por dia, que aparentemente saciam a necessidade dos pastores de gastar energia. Eles passam então o dia muito tranquilos em casa.
Lá por volta das 17h/18h que começam a se agitar e ter vontade de dar vazão às suas necessidades fisiológicas. É quando rola um conflito familiar, porque nosso filho fica se fazendo de surdo pra passar bem e evitar a responsabilidade de passear.

Ainda que dêem um quarto de volta ou volta inteira na quadra às 18h, lá pelas 22h, os prendemos na área externa da cobertura, para caso queiram fazer um último xixi ou cocô. Eles protestam, até encher nosso saco e a gente liberá-los pra ver série com a gente no sofá.

À noite, eles dormem muito tranquilo. Escolhem um cantinho no chão ou numa cama e não incomodam (só o gato incomoda). 

Sempre digo que los pastores da xetlândia não são como os border cóllens, que têm energia inesgotável. Vinte minutos de bolinha são suficientes para acalmá-los por 24h.

Espero que aproveitem este relato. Ninguém perguntou, mas eu respondi.

sábado, fevereiro 25, 2023

Qual a melhor coleira: Leevre ou Seresto


A Seresto da Pastora tinha vencido, e eu precisava substituir. Estava na praia, pedi para a minha pecuária favorita, mas eles só tinham Leevre. 

Perguntei aqui no grupo Shelties Brasil se servia, me disseram que sim. Não era o mesmo princípio ativo ("PA", falaram, e eu não entendi), mas tinham os mesmos propósitos e eficácia semelhante.

Seresto tem Imacloprida e Flumetrina. Leevre tem Deltametrina. Seresto é da Elanco. Leevre é da Ourofino. Seresto custa 220. Leevre custa 150. Seresto é contra pulgas e carrapatos. Leevre é contra pulgas, carrapatos e mosquitos-palha. Ali na praia tem muito mosquito e pouca palha, porém.

O único senão, me disse a Mondaini, é que Leevre tem um cheiro forte. Muito forte?, perguntei. Forte. Tanto assim? Forte. Muito muito? Forte. Mas melhoraria, um pouco, com o tempo, explicou.

Sou um cara fiel. Não quis trair a pecuária que me salvou muitas vezes no ano passado, quando levei a ninhada pra praia. Me leevrei do medo e dos preconceitos e comprei uma Leevre.

Quando abri a lata da coleira, foi como abrir uma lata de JIMO GÁS FUMEGANTE. O cheiro era tão forte, que dava tontura. Fiquei com medo de desmaiar, de ter choque anafilático. Minha glote, minha glote! Será que inchou? Não, era só o cheiro, tava tudo bem...

O odor era de menta com fumaça. Logo que a gente instala, já toma conta do corpo do cão. Ele passa a exalar o cheiro da coleira. A Rafa, minha esposa, diz que a Ive tá fedendo a Neocid. Neocid era um inseticida comum dos anos 80. 

A gente agora sente quando a pastora se aproxima a uma distância de três metros. Dá pra saber direitinho se ela está dormindo embaixo da cama. 

Ia melhorar com o tempo, disse a Mondaini. E de fato, fica mais suave - pra ser mais preciso, menos forte. Em determinado momento, eu estava quase gostando. Me acostumei e já voltei a afofar a peluda. Mas, ao passar dos dias, vão também surgindo novas notas aromáticas. Por exemplo: enxofre. Agora, ela se aproxima e alguém já pergunta: "tu peidou"?

Segundo a Rafa, é cheiro de Borregaard. Todo mundo que viveu os anos 80 em Porto Alegre sabe o que é "cheiro de borregar", um aroma de pum exalado pelas chaminés da papeleira então da Borregaard, do outro lado do Rio Guaíba, mas que, dependendo do vento, tomava conta de Porto Alegre inteira, submentendo a população a viver sob uma nuvem de peido. 

Agora, minha Ive é uma nuvenzinha de menta, fumaça e borregar vagando pela casa. Vou dar mais umas semanas, confiando na Carol, de que melhora com o tempo. Mas já não tenho muitas esperanças.

É quase certo que vou me leevrar da Leevre e colocar uma boa e inodora Seresto na minha pastora.

   

sexta-feira, dezembro 02, 2022

Sonho

Eu estava no Laje de Pedra durante o Festival de Cinema de Gramado. Era toda aquela muvuca de produtores na piscina térmica: quem não tava de roupa na piscina vestia sunga excêntrica. E uma mulher de camisa azul, só dois botões abertos, magrinha, alinhada, mas com um quê de polícia. Eu comentava que fui assaltado na saída do hotel, juntinho à corredeira do Rio - "na beira da spring", eu falava. Um cara apontou um lápis pra mim. Não levou nada, porque nada eu tinha e consegui fugir. Três prostitutas ao lado dele não fizeram nada. Nada! Nem o monte de véio playboy que via tudo por trás dos gradis do hotel. Eu estava concluindo este relato pros caras do hotel, quando algum deles contou que tinha uma investigadora ali. Na área da piscina só uma pessoa ostentava cara de investigadora. E então eu disse:
- É tu! Detetive Aline!
E ela respondeu:
- Não posso dizer - e deu uma piscadinha.

sábado, novembro 26, 2022

Ninhada de Pastor de Shetland

Ah a gente deu nome pra todos assim que nasceram.

A Rafaela viu o primeiro, checou se tinha piupiu ou periquita e lascou, do nada, aleatório total:
- Pâmela!
Aí foi ladeira abaixo, pepêzando tudo:
- Patrícia!
- Paulinha!
Daí, cê sabe, _eu conheci Paulinha numa noite de verão..._ E então eu disse:
- Armandinho!
Nesse momento do parto aconteceu algo estranho. Em vez de um cãozinho nasceu um porco da índia duas vezes maior que os outros bebês e botando banca. Era o alfa da ninhada. Ficou Alfa mesmo.
E por fim um machinho pequenucho, simpático. Ele tinha uma cara simpatica, que nem o garçom mais carismático de Portto Alegre, do Sakura.
- Este é o Miro!
E foi o único que a família honrou 🙏

Troquei a ordem pra ficar mais fácil concatenar, mas pensando agora ficamos com o único que nao ganhou nome. Nem no registro a gente sabia  e aí colocamos Vinicius, porque era do Tropical Shelties, e a Ive já era inspirada em MPB. Tadinho, depois duns 4 meses que pegou o nome Téo. Mas hoje a gente chama de dinossauro mesmo....

segunda-feira, setembro 19, 2022

Dicas de Bento Gonçalves e Garibaldi


Opa, amigo. Rapidinho, as coisas bacanas na região de Bento Gonçalves (RS), que eu lembro agora....

No Vale dos Vinhedos... Vinicola tem muita coisa, né?, mas ainda acho que tem duas meio obrigatórias.

A Miolo, pq é grande e o Wine Garden é bem legal, tomar vinho debaixo das árvores. E a Pizzato porque é uma vinicola butique e os vinhos sao ótimos. Tem um tinto Veludo Azul que é ótimo. Atenção: os vinhos no varejo da Miolo sao mais caros que no Zaffari! Na Pizzatto deve estar valendo a pena. 

Uma tarde dá pra ir pra Pinto Bandeira, onde tem a Cave Geisse e a Don Giovanni. As espumantes da Geisse sao ótimas; a sede da Don Giovanni é bonitinha.

A cidade de Garibaldi tá muito fofa. Tem a rua Buarque de Macedo, que parece cenario de filme. Bom de passear e tomar um café, comer um burger, se tiver cansado de massa e galeto. Lá em Garibaldi, também tem uma tratoria bem legal, é de um ex-jogador do Gremio, chama Primo Camilo, numa casa antiga...

Alias se tiver mais pra uma comidinha mais leve, em dia de semana, almoça em Bento no Sapore e Piacere, um bistrozinho perto da igreja. Eu sempre almoço lá. 

Pode pegar uma tarde pra ir nos Caminhos de Pedra.

Em Farroupilha tem uma cascata bem bonita: chama Salto Ventoso. Pertinho tem a Cervejaria Blauth. Vale a pena.
   

sexta-feira, junho 10, 2022


Matico, segue texto do Winni. Fica à vontade para melhorá-lo inclusive com fatos que conheça sobre ela e que julgues interessante acrescentar. Abço




As aventuras e desventuras de Winni

(Viaje com a brasileira de 23 anos que caminhou 200km no Saara e explorou sozinha a África árabe)

 

Em 45 dias de viagem pelo norte da África e Oriente Médio, Winni Rio Apa contabilizou 200 quilômetros de caminhada no deserto do Saara, um assalto sofrido e cinco detenções policiais. A última parte foi o preço que pagou por ter acreditado que a fraternidade e a liberdade eram valores universais.

Turismóloga, guia de expedições para a cordilheiras dos Andes na Argentina, aventureira por profissão e por paixão, essa curitibana de 23 anos, radicada em Florianópolis, começou a delinear sua última viagem no verão de 2009. Era um final de tarde na Lagoa da Conceição e ela admirava o pôr-do-sol em um trapiche com amigos. Ali, foi apresentada a Toco Lenzi, guia de viagens para o deserto, que relatou seu projeto de atravessar o Saara caminhando em oito anos, ao longo de diferentes expedições. "Na hora fiquei com aquilo na cabeça. Imagina.... Partir do nada e chegar a lugar nenhum!", lembra Winni. Desanimador? Para ela, desafiador. Somente a ideia da caminhada já lhe deixou tentada, mas uma coincidência nas conversas iniciais ajudou-a a se aproximar ainda mais do guia.

- Seu sobrenome é Rio Apa? O que você é do Thor Rio Apa - perguntou Lenzi.

- Sobrinha. Por quê?

- Há uns quinze anos eu estava na praia do Cassino (RS), filmando uma competição de carro a vela, e achei uma garrafa na praia. Dentro tinha uma poesia do Thor. Por um tempo me correspondi com ele.

Até hoje, Lenzi guarda a garrafa. Winni nunca foi vê-la. Mas iniciou imediatamente seu projeto 200Km no Saara 2010. Durante todo o ano passado, trabalhou como nunca. Deu duro como garçonete em dois restaurantes da Ilha. Ajudava em uma companhia de alpinismo industrial, a D-Edge, "na parte administrativa, mas quando precisava, me pendurava também nos prédios, para limpar vidros, essas coisas". Ainda obteve apoio com a Mountain Brasil, empresa que forneceu equipamentos para a ida ao Saara, e de um amigo designer que a ajudou com a logomarca de seu projeto, depois estampada em 110 camisetas. Elas foram vendidas em um kit contendo um CD de músicas da África Árabe e um cartão postal cuja imagem era a montagem de uma foto na qual Winni aparece no meio do deserto. Somente essa ação lhe rendeu R$ 3.300. Ao final do ano, ela já tinha os US$ 4,8 mil necessários para passar duas semanas no Saara e mais um mês viajando sozinha pela Mauritânia, Tunísia, Egito - embora a passagem esteja ainda "pagando em 10 mil vezes", como diz.

A primeira coisa que Winni descobriu ao chegar ao Saara, em 30 de janeiro deste ano, foi que o deserto não levava "do nada a lugar nenhum". Ou melhor: que o deserto não um só deserto, mas muitos, uma paisagem variada, com arbustos, pedras coloridas, cascalho, dunas, pequenas montanhas; pequenas cidades e aldeias aqui e acolá; nômades e comerciantes que aparecem e que se vão; uma cor diferente para o nascer e outra o pôr-do-sol. Acompanharam-na nessas descobertas um grupo de oito brasileiros, entre eles Lenzi, 12 dromedários para carregar as coisas e seis guias beduínos.

O dia dos caminhantes começava por volta das 6h30min da manhã, quando acordavam e iam tomar café na tenda árabe montada pelos guias locais: um pão de areia (assado sob a areia com brasa por cima), geléia, leite em pó porque de cabra todo dia enjoaria, café, chá e os inseparáveis queijinhos La Vache que Rie, companheiros de todas as horas na viagem. Às 8h, o grupo partia em caminhada, e, apesar de um lanchinho com queijo durante a manhã, só parava mesmo às 13h30min, quando os beduínos remontavam as tendas e o grupo almoçava: atum com batata e um suco Tang de sabor variável. A seguir, hora de fazer nada. Deitar, rolar, abanar as moscas, espanar a areia grudada no suor do corpo, tentar fazer o tempo e o calor de 40 graus à sombra e mais de 50 graus ao sol passarem. Para então, ao fim de tarde, aproveitarem os matizes do cair do sol sob a névoa de areia e aguardarem o frio da noite. O jantar era com carne de cabra seca, cenoura, batata, tomate e cuscuz ou macarrão. Montar as barracas era a parte mais fácil do dia. "É uma barraca especial (tipo quéchua). Como se fosse uma pizza gigante que você joga no chão e em dois minutos ela se arma sozinha. Difícil era transformar aquilo em pizza de novo", conta a viajante.

Mas nem tudo era tão fácil como a barraca quéchua. Passar sete dias só com banho de paninho úmido, fazer do ar livre o seu banheiro foi o de menos para Winni. O terror da caminhante foram as bolhas nos pés. Levar as botas de caminhar na neve dos Andes Argentino para caminhar na areia do Saara definitivamente não foi uma boa ideia. No oitavo dia, apesar da faixa enrolada todo dia, seu pé estava em frangalhos, e ela teve de se socorrer do dromedário. A solução na jornada seguinte foi improvisada, mas funcionou. "No nono dia, apelei para o tênis número 43 emprestado por um colega. Ficou grande no meu pezinho 38, mas aí consegui caminhar", diverte-se.

Durante a expedição, Winni manteve a cabeça coberta com panos, para manter a umidade do corpo e seguir a tradição local para as mulheres. "Coberta, me sentia muito mais charmosa, bonita, as pessoas me olhavam com respeito", revela (impossível ouvir essa descrição, olhar para íris esverdeada de Winni e não lembrar da célebre foto da garota afegã de olhos ainda mais verdes eternizada pelo fotógrafo Steve McCurry, na capa de uma National Geographic). Do contato com os guias beduínos, com nômades que levavam, literalmente, a casa sobre camelos e com os moradores das aldeias pelas quais passou, a jovem aventureira afirma só ter trazido boas lembranças. "O deserto é maravilhoso, foi um dos lugares que me senti mais segura em minha vida. Aquelas pessoas... Eles têm uma cultura de compartilhar experiências. Em muitos lugares me ofereciam leite de cabra em uma bacia, às vezes já estava verde a bacia (ri), mas era importante para eles aquela troca, beber do mesmo leite. E também tem o ritual da roda de chá. O chá para eles é como o relacionamento das pessoas. Costumam dizer que na primeira rodada do chá, ele está amargo como a vida. Na segunda, doce como o amor. E, na terceira, suave como a morte", conta Winni.

Supostamente a parte mais dura de toda a viagem, a experiência no Saara, entre Atar e Oásis de Terjit, na Mauritânia, foi a mais tranquila para a viajante. Complicada foi a sequência seguinte: os 30 dias como backpecker solitária na África Árabe, em cidades da Mauritânia, Tunísia e Egito. A beleza das pirâmides egípcias, a mística do nascer do sol no Monte Sinai, para Winni, a julgar pelo tempo que dedica a cada relato, tudo isso parece menos importante do que suas desventuras urbanas. Hoje ela conta com divertimento o que passou. A começar pelo assalto que sofreu na Tunísia, quando, depois de fazer amizade com dois locais, foi roubada por eles, ficando com menos 150 euros de um dinheirinho que já estava contado. Ao fugir de trem, os assaltantes ainda esfregaram as notas na janela da composição e deram tchauzinho para a brasileira. Sem grana para pagar albergue, a bela Winni, que hoje conta essa história vestindo um elegante casaquinho roxo em um charmoso café de Porto Alegre, teve de dormir no meio da calçada. Acordou com a própria boina, despropositadamente deixada ao chão, recheada com três moedas. Misericórdia com uma mendiga. Que pagou o pão do café da manhã. Não bastasse isso, na Tunísia ela teve seu primeiro problema com a polícia. Parada na rua, não pôde apresentar o passaporte que deixara na embaixada do Egito para pegar o visto. Quase foi presa, mas uma ligação para os diplomatas egípcios convenceu os policiais.

Até quando tudo dava certo, havia uma certa tensão no ar na programação de Winni. Como quando foi convidada com uma amiga backpecker que conheceu na viagem para uma festa de casamento no Egito. Só esqueceram de dizer que era no dia dedicado ao noivo (os casamentos na região são realizados em três dias: o primeiro para o noivo, o segundo para a noiva e o terceiro para a família dos dois). Resultado: as duas turistas eram as únicas mulheres em uma festa para 300 homens no meio da rua, regada a muito chá, pipoca e açúcar caramelado. "Todo mundo queria tocar na gente, crianças, todo mundo! A gente era atração turística. Ficavam todos os convidados sentados no chão e nós duas numa cadeira". O grand finale foi quando elas foram convidadas - ou melhor, convocadas - a dançar. Apesar de serem as únicas mulheres do arrasta-pé, tudo ocorreu no maior respeito.

 Como se pode ver, Winni gosta mesmo do inusitado, do diferente. E uma amiga japonesa que encontrou na viagem também. Tanto que quando receberam o convite de um beduíno para visitar uma aldeia no meio de um mangue no interior do Egito, a oriental não teve dúvidas. Estudiosa desse tipo de ecossistema, foi a primeira a dizer: vamos lá! Ainda que para chegar ao local tivessem de pegar um ônibus, descer na estrada, no meio do nada, e caminhar 7 quilômetros até o mangue. Foi o que as duas fizeram. Só não contaram com a polícia, que lá, no meio do nada, abordou-as. De um lado as turistas argumentavam em inglês que tinham o direito de ir e vir e de conhecer o mangue. De outro os policiais respondiam, em mímica, que elas não podiam, que era perigoso, que iam ser mordidas por cachorros, que virariam escravas sexuais. E assim se estendeu das 17h até às 23h uma confusão que terminou com Winni e a japonesa em uma cela de cadeia. Pelo menos a cela era melhor do que muitos lugares que Winni havia dormido e quando chegou 1h da manhã o delegado precisava ir embora e mandou soltar as meninas.

Mas os problemas de Winni com a lei estavam recém começando. Ela ainda teria de enfrentar três detenções em Israel, onde só entrou para pegar um vôo mais barato até Paris, de onde retornaria ao Brasil. Alheia aos meandros da política e dos conflitos na África e no Oriente Médio, foi detida por três vezes pela imigração israelense por ter o passaporte carimbado por países árabes com os quais o estado judeu tem um histórico de conflitos. A primeira vez na divisa terrestre, em Eilat, junto à Faixa de Gaza, fronteira com o Egito. A segunda no aeroporto de Eilat. E a terceira no aeroporto de Tel Aviv. Em todas elas, foi interrogada: o que você foi fazer na Tunísia? Você sabe que a Al Qaeda está na Mauritânia? Que terroristas você conheceu na viagem? O que eles lhe deram para trazer? O que você vai explodir aqui? Acreditamos que você faz parte de um grupo de terroristas! As perguntas (e acusações) eram sempre as mesmas, se repetiam até extenuar a viajante. Por diversas vezes, Winni teve de ficar de calcinha, passar por detectores de metais, viu revirada sua mala. De suas coisas, finalmente acharam a bomba. E a viajante foi confrontada com a matéria-prima do artefato: um saco de areia que trouxera do Saara, fios da máquina fotográfica, pilhas da lanterna, uma pinça, uma lixa. "Rapaz, eu nem sabia que dava para fazer bomba com aquilo", ri ela hoje.

Ao fim, Winni foi liberada. Mas teve de deixar a "bomba". Tudo bem, disse, mas o saco de areia eu levo.

- Por quê? - perguntou o policial.

- Porque é importante para mim - e já foi pegando a lembrança.

Depois de ter até mesmo viajado algemada em um voo entre Eilat e Tel Aviv, Winni finalmente chegou a Paris e então ao Brasil. Com o seu saco de areia do deserto intacto, souvenir maior da viagem. Para muitos, a insistência em contestar a polícia egípcia, de querer visitar um vilarejo ermo no meio do mangue, a ousadia de pedir o saquinho de areia aos israelenses, tudo isso pode ser ingenuidade juvenil. Para Winni, não passa de aventura.

Filha de um advogado com uma artesãa, ao ser questionada sobre a origem de seu espírito aventureiro, Winni recorre aos tempos de infância quando vivia fraturada por explorar o pátio do vizinho e obras inacabadas na cidade. E à adolescência, quando viveu na praia da Pinheira (SC), com o avô, Wilson do Rio Apa (confira perfil na VPTV), marujo destemido, "Terror dos Mares", como ela recorda, e um homem que aos 85 anos ainda acredita na liberdade acima de tudo. À luz da história do avô, fica fácil entender a neta aventureira.

 

Texto originalmente publicado em 2010 para o site Via Política.

Por Sebastião Ribeiro

A prisão fica atrás do balcão

Olhos no nada, boca sem dentes, fala embaralhada pelo andar de bar em bar, o homem aproxima-se do balcão. Do outro lado, o bolicheiro Monte, 65 anos, pergunta, apenas para precipitar uma resposta que nunca muda.

- Que quieres?

- Rá! Que pergunta! - provoca o cliente, alguns tons além do esperado para o ambiente.

Como quem ouvisse uma resposta clara, Monte serve o de sempre. Em um copo curto de cachaça, mistura quatro partes de aguardente e uma de "Catuaba Carinhoza", um "coquetel de vinho tinto suco de maçã xarope de maçã fermentado de maçã e catuaba" - assim mesmo, como no rótulo, sem virgulas e com um Z no lugar de um S.


Cinco de janeiro de 1976. É véspera do Dia de Reis, quando os uruguaios trocam presentes, em um ritual que na cultura brasileira ocorre na véspera de Natal. Nascido com o pomposo nome de Herbert Vicente Montenegro Felipe e transformado pela vida simplesmente em Monte, o então fotógrafo e artesão assava uma carne na grelha em companhia do sogro, Armando, e dos dois enteados, os quais chama de filhos, Diego e Federico, então com cinco e seis anos, respectivamente. Na casa em Pocitos, bairro nobre de Montevidéu, esperava com a família a chegada da mulher, Libertad, atrasada por causa do tradicional serão do comércio na data.


Mas quem chegou primeiro foram os militares. Pouco antes da meia-noite, bateram à sua porta, anunciaram a prisão e confiscaram suas fotos, câmera, equipamentos, embora Monte relate que só fazia imagens de eventos sociais – festas, casamentos, aniversários. Os quatro anos seguintes o uruguaio passou na cadeia. 


Trinta e três anos, nove meses e oito dias separam o episódio da prisão do prosaico pedido do drinque de Catuaba Carinhoza no bar localizado no bairro Azenha, em Porto Alegre (RS). Mas, de alguma forma, a prisão está ligada à rotina atrás do balcão que o destino reservou a Monte. Não fosse a ditadura que perdurou de 1973 a 1985 no país vizinho, é provável que o bolicheiro levasse outra vida. No início dos anos 1970, ele estudava na Escola de Belas Artes de Montevidéu. Mas nunca concluiu o curso. Antes disso, a faculdade, núcleo do movimento estudantil, foi fechada pela repressão da ditadura. "Entrei de gaiato nesta de bolicho. Foi meu sogro que inventou esta história de bar, lancheria. Mas agora é tarde para mudar. Não terminei nada", resigna-se, em espanhol, atrás de uma empoeirada máquina registradora analógica, fora de uso há anos, que alguém parece ter esquecido de tirar do balcão.


A chegada da família a Porto Alegre foi em 1982, quando Monte ainda se sentia reprimido no Uruguai por ter de se apresentar à Justiça regularmente. Vieram a convite de Armando, falecido em 1990, pai de Libertad, fruto de romance com uma uruguaia. Pouco depois, nasceu o primeiro filho do bolicheiro com a esposa, Maurício, hoje com 24 anos. Desde a chegada ao Brasil, o Bar do Monte sobrevive no mesmo e antigo casarão de esquina, construído na década de 20, ele informa; um lugar onde o tempo passa na velocidade em que os cupins corroem a madeira do balcão. Va-ga-ro-sa-men-te... Cada dia é igual ao outro. Da abertura, pela manhã, ao fechamento, à noite, sucedem-se os mesmos personagens de ontem e de anteontem. A maioria alcoolistas que percorrem um circuito nos botecos da região. Cada um com sua esquete. Tem o que discursa, o que passa horas quieto escorado no mesmo canto, o que fuma sem parar enquanto tem a boca carcomida pelo câncer.


Monte prefere afastar-se da clientela para contar esta história. Militante da União da Juventude Comunista Uruguaia na década de 1970, ele lembra ter sido preso brevemente pela ditadura outras vezes antes de 1976, por atitudes subversivas. Mas relata nunca ter aderido à luta armada; suas atividades políticas resumiriam-se a protestos, reuniões, pichações. O suficiente para levá-lo à prisão naquela véspera de Dia de Reis. Nos primeiros seis meses de cárcere, Monte conta ter ficado incomunicável, encapuzado boa parte do tempo, muitas vezes de pés atados.


Ele não consegue – ou não quer – lembrar com detalhes esses tempos. Prefere o relato genérico a outro mais pessoal. Mesmo quando confrontado com perguntas diretas, esquiva-se. Impossível não arriscar dizer que as minúcias pungentes estão escondidas em seus olhos sempre baços e pesados. Seu olhar resignado, muito mais do que melancólico, emoldurado por uma espessa sobrancelha preta, provoca tanto estranhamento no interlocutor quanto a sala na qual Monte concede a entrevista. Nos fundos do bar, ela abriga um sebo e uma videolocadora. Ali, ele vende livros usados, pôsteres e quadros antigos restaurados, além de alugar filmes. Embora não seja um bibliófilo, sabe escolher os autores clássicos e contemporâneos que mais vendem. Nas prateleiras, oferece títulos de escritores consagrados como Luís Fernando Veríssimo, Paulo Coelho, Martha Medeiros, Michel Houellebecq. Perguntado sobre suas preferências pessoais, cita os grandes da literatura latino-americana: Gabriel García Márquez, Mario Benedetti, Mario Vargas Llosa, "embora este tenha se bandeado para a direita", Augusto Roa Bastos, Alejo Carpentier. Jorge Luis Borges e Julio Cortázar nem tanto, por considerar uma leitura mais difícil, "entreverada".


Usando tênis, calça jeans e camiseta branca, com uma barba grisalha e cerrada feito de bandido de história em quadrinhos, Monte também aproveita para falar sobre cinema, lembrar-se das tardes gastas no Cineclube do Uruguai na década de 60, e sobre a situação política na América Latina hoje, a qual acompanha de longe, pelos jornais. Ao seu lado, a cadela Laura, uma vira-lata malhada cuja presença é anunciada por um cartaz - "Cuidado: Cachorros Soltos" -, concentra-se em um osso de rabada. "Ela foi deixada há alguns anos aqui. No início, pedi para um amigo de Canoas (município da Região Metropolitana de Porto Alegre) largá-la longe. Ele botou na caminhonete e soltou em Esteio (cidade a 17 quilômetros da capital gaúcha). Uns quinze dias depois, ela estava de volta. Apareceu de novo no bar. Hoje, até cumpre uma função de segurança, de noite. Garanto que tem uma vida muito mais feliz do que qualquer um aqui. É uma cachorra anarquista, libertária. Sai para a rua a hora que quer, volta quando quer", analisa.  


Os livros, os filmes, os pôsteres e quadros espalhados aleatoriamente pelo bar, o gosto de Monte pela literatura, pelo cinema, pela política, e sua satisfação em falar sobre esses assuntos com qualquer um que busque no seu bar algo além de mais uma dose dão um inesperado ar cult ao ambiente tomado pelo cheiro de cigarros Dallas, Shelton, Derby ou Oscar's Blend. Se ficasse em um bairro boêmio da capital gaúcha, o Bar do Monte poderia atrair uma clientela como a do bar de seus enteados Federico e Diego, o Ossip, símbolo da boemia porto-alegrense. Tanto que já foi locação para dois filmes de produtoras gaúchas e, enquanto Monte concedia essa entrevista, outra profissional do cinema comparava os tons do seu bar com uma paleta de cores para preparar a filmagem de uma terceira montagem.


Monte gosta dessa função. Na fachada descascada de seu estabelecimento, a pintura anuncia: "Quadros, VHS Filmes, DVDs, Livros, Cigarros, CDs, Refris". Se pudesse, o bolicheiro ficava só com os quadros, filmes e livros. Mas nada disso lhe deu o dinheiro que esperava ("meus negócios são sempre um desastre", admite). Por isso, ele resiste. Atrás do balcão. 


Por volta das 19h, há pelo menos outros cinco clientes alcoolizados no bar, além do homem da Catuaba Carinhoza. Às 21h30min, o dono, que não bebe, colocará na rua os remanescentes, para no dia seguinte acordar-se às 7h30min, tomar café-da-manhã, seus seis remédios para o coração, ler o jornal e reabrir o bolicho às 8h30min e servir a primeira dose de cachaça. "É muito estressante trabalhar com usuários de drogas. A droga aqui é a bebida. Não tenho paz nunca. Vou ser sincero. Não sei como me adaptei a isso. É prova de que o ser humano se adapta a qualquer coisa. É como quando eu, depois de três anos na prisão, quase me sentia em casa". 




Reportagem: Sebastião Ribeiro / Cartola - Agência de Conteúdo

Uma produção exclusiva para Via Política.